quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O JARDIM DOS OSSOS.


Num século anterior ao nosso havia um local perdido entre as montanhas de Minas Gerais, tão isolado que nem aparecia nos mapas, e cujo acesso serpenteava nas encostas e serras num emaranhado de estradinhas de terra e pedra. Neste lugar viviam três irmãs que se dedicavam aos cuidados do jardim que rodeava sua casa centenária.
Um casal se perdeu neste labirinto, e ao galgar um aclive pedregoso, avistaram o jardim e as três irmãs. O homem desceu da charrete e acenou: - Senhorinhas, por favor; estamos perdidos! - uma delas se aproximou sorrindo: - Aqui vossas mercês nunca estão perdidos, mas achados! - ele retribuiu o sorriso e disse que seguiam à Vila Rica, mas ao viajar à noite acabaram entrando numa estrada errada que levou à outra e outra. Agora os cavalos estavam cansados e eles com sede e fome. As outras duas irmãs se aproximaram dando-lhes boas vindas r já trazendo moringas com água fresca. Elas explicaram que aií havia um pequeno povoado com poucos habitantes aonde eles poderiam descansar e comer algo. Logo vieram dois rapazes que os ajudaram com os cavalos, e o casal agradeceu a cortesia e seguiram ao povoado.
Depois as três irmãs trocaram olhares, largaram as enxadas e correram à casa. Na ampla sala elas se deram as mãos e começaram a entoar cânticos num dialeto que nada tinha a ver com o léxico falado nas colônias de "El Rei", e sim com as longínquas ilhas britânicas, pois em verdade eram três sacerdotisas Druidas que por força das perseguições ás bruxas no velho mundo, acabaram por chegar à Capitania das Minas Gerais junto ao seu pai em busca de refúgio. Ocorre que elas praticavam a antropofagia, e para obterem a vida eterna sacrificaram o próprio pai num ritual de magia, quando assaram seu corpo e o devoraram. Depois depositaram seus ossos naquele jardim ao qual deveriam cuidar por toda a eternidade, tendo que vez por outra repetir o ritual antropofágico e enterrar os ossos dos infelizes naquele jardim de flores tão coloridas como o arco íris.
Elas estavam radiantes, pois naquela noite seriam dois assados e devorados, não só por elas mas pelos habitantes do povoado, que enfeitiçados continuariam sendo os guardiões das três sacerdotisas e seu jardim.
Contudo, se uma das três irmãs se apaixonasse ou fosse tocada no sexo, o feitiço se quebraria e elas voltariam à sua idade real, trezentos anos, antes de terem uma morte horrível. Mas mesmo tendo consciência deste perigo, o coração da irmã mais velha bateu diferente assim que avistou a charrete. Era uma sensação irresistível.
Enquanto suas irmãs se lançavam aos preparativos do banquete macabro de mais tarde, ela se retirou para banhar-se num regaço de águas geladas. Estava assustada, mas sabia o que era aquilo, pois tinha lido em antigos escritos que descreviam a volúpia como uma torrente cálida que tomava todo o corpo. Era o que que sentia, além de uma vontade irresistível de ver novamente o objeto do seu desejo.
Ela seguiu a lateral da taberna de pau a pique e espiou o casal pela janela sem ter a menor noção que em horas estariam empalados em espetos a girar ao calor do braseiro. Uma sensação de pânico lhe irrompeu ao pensar que presenciaria a morte se quem jamais poderia lhe pertencer, e ela seria seu carrasco! Isto seria muito doloroso, pois jamais poderia lhe negar a vida que, também em verdade, nunca poderia ter. - Este é o preço mais cruel desta eternidade! - sentenciou na certeza que não conseguiria executar aquele ato. Então voltou para casa decidida a salvar-lhe a vida.
Ela chamou suas duas irmãs e sugeriu que, por serem dois, poderiam antecipar o ritual: um deles seria servido no almoço, enquanto que o outro numa ceia noturna. Elas concordaram e se apressaram ainda mais no preparo da fogueira e dos espetos. Esperta, a mais velha chamou os habitantes do povoado para ajudá-las.
Foi um ardil para distraí-los, porque enquanto arrastavam a primeira vítima aos berros, com o corpo besuntado em azeite, sal e especiarias, a sacerdotisa saiu ás escondidas e colocou seu amor na charrete, e lhe ordenou: - Fujas daqui o quanto antes e salves tua vida!
- E tu? - perguntou com medo.
- Eu ficarei aqui. Não tenho escolha!
- Tens sim! Venhas e salves tua vida também!
Ela olhou para trás e viu que seu estratagema foi descoberto. Suas irmãs e os habitantes do povoado se aproximavam. Então pensou: - Que me importa? Trezentos anos está de bom grado! - e entrou na charrete, partindo em disparada pela estrada afora.
Já distante a sacerdotisa não resistiu e se entregou ao desejo, roubando-lhe um beijo. Depois fechou os olhos com força, esperando pelo desfecho de sua vida. Mas nada aconteceu: - Não entendo, ainda estou viva!
- Ui,... E como! - exulta olhando-a.
Ela abana a cabeça  e diz: - Pelos meus ancestrais, como pode ser isto? - mas apesar do alívio, tinha certeza que não seria perdoada pelo seu amor, e lançou-lhe um olhar culposo ao dizer: - Eu sinto tanto não ter salvado também a vida do teu marido!
- Marido? Aquele traste não era meu marido; era meu sinhô, e que o diabo o carregue!
Então a sacerdotisa entendeu que o toque e o amor a um homem a destruiria. Já numa mulher a libertou.
E viveram felizes para sempre.

Muito depois no jardim: - Senhorinhas! - as duas olham. - Eu estava seguindo à Vila Rica e me perdi!
Uma das irmãs se aproxima com uma moringa de água, e diz sorrindo: - Aqui vossa mercê nunca está perdido. Está achado!...

Fim.         

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O CAMPEÃO DE AUDIÊNCIA.


Um grupo de adolescentes saía de VW Fluctuate-1300 que pousava diante o portal da antiga TV Orion. Têm por volta de quinze anos. Larissa levantou um pouco seus óculos escuros e disse: - Não estou achando a menor graça em entrar aí! - Júlio, um dos meninos, respondeu: - Você não sabe que é assombrado? Até já viram o fantasma! - outro garoto, Tony, explicou: - Não viram, apenas disseram que sentiram a presença e ouviram barulhos. É isto que viemos ver! - Milena falou: - Já pensou se a gente consegue filmar? - apanhou um minúsculo tablete translúcido, o tocou e surgiu uma tela virtual no ar. - Minha câmera está pronta. - Diego ri: - Onde você arranjou esta velharia, com sua avó? - Tony repreende: - Parem com esta bobagem porque estamos todos com nossas lentes magno-temporais. É só piscar. Vamos!
O grupo passou por uma parte desabada do muro próximo ao portal de entrada onde se lia: "O tempo que passou já não é mais. O tempo futuro ainda não é. O presente, se fosse estático seria a eternidade." Uma verdadeira selva tomava conta do que no passado foi uma das maiores  rede de TV do Brasil. - Quando esta televisão acabou Tony? - perguntou Larissa.
- Foi em 2019! - ele projetou um texto holográfico no ar com seu micro chip implantado atrás da orelha: "Em agosto de 2018 a TV Orion estreou um reality show chamado O Grande Pai, que consistia em colocar crianças reclusas num ambiente cenográfico que reproduzia uma confortável casa de classe alta. Estas crianças foram selecionadas em abrigos de menores. Elas deveriam manter a casa em ordem e interagir enter si; tudo com alardeado acompanhamento psicopedagógigo, e todos os dias passavam por provas que consistiam em jogos que valiam ponto. Ao final o vencedor receberia um prêmio em dinheiro e seria adotado por uma das famílias selecionadas pela produção do programa. Os garotos eram julgados pelo público a cada semana, eliminando-se os que não obtivessem êxito nas provas."
- Nossa! - exclamou Milena: - O vencedor era adotado e os outros voltavam para o abrigo? Que sacanagem!
- Sim! - respondeu Tony. - Diz aqui que em pouco tempo o programa virou um campeão de audiência, com picos de até 75% pelo IBOPE.
- O que é IBOPE? - perguntou Larissa.
Tony deu de ombros: - Sei lá! - e prosseguia o texto: "Diante do sucesso do programa, na segunda temporada em 2019 a produção do programa decidiu selecionar participantes com ligeiras deficiências e problemas mentais sob a bandeira da inclusão, tão em moda na época." - Que horrível isto! - pensou Tony. O texto prosseguia: "No início se repetiu o sucesso. Contudo, as provas foram alteradas para que as crianças pudessem executar as tarefas, e isto as tornou, por um lado enfadonhas ao público, e constrangedoras para as crianças porque quase sempre não conseguiam cumpri-las. Com o tempo a opinião pública começou a achar aquilo uma afronta a dignidade das crianças, apresentadas como cobaias de laboratório cumprindo tarefas e jogos tolos. E quando uma criança era eliminada, mas não queria sair do set, era retirada a força por pessoas fantasiadas de super heróis e personagens de anime. Isto foi considerado cruel e sádico. Então a audiência do programa despencou vertiginosamente, e este declínio estendeu-se as demais atrações da emissora.  Surgiram provas que a adoção da criança vencedora na primeira temporada foi uma farsa, porque a encontraram escondida num abrigo de menores clandestino no Norte do país. Seguiu-se uma guerra de acusações entre a produção do programa e os pais adotivos, que denunciaram a farsa a imprensa. Isto indignou toda a opinião pública, que em represália boicotou todos os produtos anunciados, não só no O Grande Pai, mas a toda emissora . A brutal queda de receita levou a TV Orion a atrasar pagamentos de dividas, inclusive trabalhistas, até não conseguir mais honrar seus compromissos. Então, em 11 de outubro de 2019 a TV Orion suspendeu suas atividades e seu proprietários fugiram para a China, onde tinham cidadania, e foi decretada a falência da outrora campeã de audiência. Os estúdios foram interditados pela Justiça e depois abandonados, e assim permaneceram por estes cinquenta e quatro anos."
- Que história! - falou Tony enquanto caminhavam pelos escombros a cada canto. Passaram diante das ruínas do que devia ter sido a administração da emissora onde ainda estava o letreiro da "TV Orion" com os dois "OS" formando olhos. Tony ainda observou que o último episódio de O Grande Pai seria exibido exatamente no dia 11 de outubro de 2019.
- É aqui que viram o fantasma! Vamos entrar. - falou Júlio. - Era um imenso estúdio, cuja cobertura esperava só a próxima ventania para desabar, e o chão estava coberto por um manto de samambaias. Trepadeiras se enroscavam as torres de refletores. Milena tropeçou em algo: - Ai, o que é isto?... Uma cobra? - Júlio a acudiu: - Não é cobra. Isto era usado para levar eletricidade antes de inventarem os fios aeólicos! - a cada passo surgia uma curiosidade do passado: restos de uma ilha de edição; algumas câmeras apontadas para lugar algum. Havia uma caixa cheia de tablets, que Larissa não tinha a menor ideia de sua utilidade original.
Chegaram aos restos de um auditório com uma enorme porta ao fundo estampada com o rosto de um homem sorridente de braços abertos. - Olhem! - falou Tony: - É a entrada do cenário de O Grande Pai! - Milena completou: - É aqui que viram o fantasma! -  se aproximaram da porta, que estava fechada. - Como se abre isto? - perguntou Diego. - É assim! - respondeu Júlio com um chute que pôs abaixo a porta completamente roída de cupins. Um tanto receosos, eles passaram por um corredor escuro, se assustando com uma revoada de morcegos que fez as garotas gritarem. Eles correram e chegaram a outra porta fechada. - E agora? - perguntou Milena, ao que Júlio preparou outro chute. Mas Tony pressionou uma barra transversal, fazendo funcionar uma mecanismo que a abriu, revelando um imenso matagal onde despontavam árvores e plantas trepadeiras. Havia um buraco em formato de ameba encoberto por um tapete de plantas rasteiras, com a armação enferrujada de um trampolim. - É a piscina, ou o que sobrou dela! - falou Diego. Adiante viram as ruínas do que devia ter sido a casa cenográfica com seu teto desabado. Havia árvores frutíferas no seu interior. - O que é aquilo ali? - perguntou Larissa apontando a uma palhoça feita com restos de cenários e fios elétricos.
Era tudo estranho e assustador. Então um barulho os fez olhar a palhoça por onde surgiu um pé descalço numa abertura. - É o fantasma! - se arrepiou Milena, e em instantes apareceu a figura de um homem velho, esquálido, com barba rala, calvo e com longos fios de cabelos grisalhos despontando na nuca. Usava um farrapo de camisa que mal lhe cobria a barriga magra enquanto que sua calça quase se desfazia a cada passo. Ele parou e cobriu seus olhos da luz solar, e continuou e vir na direção dos garotos, com dificuldade. - Ele não está parecendo fantasma. -  falou Diego. o homem parou, os olhou e perguntou sorrindo com sua boca banguela: - Eu ganhei? - os garotos se entreolharam e ele perguntou novamente: - Eu ganhei o programa, não é?... Quando vou ver minha mãe e meu pai?
Os cinco adolescentes ficaram paralisados, e o homem continuava: - O diretor falou que quando aquela porta abrisse,... - apontou seus dedos magros com unhas sujas: - O menino que ficou aqui é o que ganhou o programa!... - riu quase histérico: - Eu ganhei!... Eu ganhei! - e levantou os braços numa alegria totalmente descabida.
- Quem é esse velho? - Perguntou Diego ao que Tony buscou informações no micro chip: "No último episódio de O Grande Pai ficaram dois finalistas: Daiane de nove anos e Evandro de dez anos"...
O velho os observava como que aguardando algo, e Tony perguntou: - Como você se chama?
Ele respondeu - Eu sou Evandro, o autista! - risada. - Eu fiquei até o fim, e ganhei o programa! - então ele cambaleou e se sentou no chão, colocando sua mão na perna esquerda onde havia uma mancha de aspecto repugnante no tecido da calça. Tony se aproximou, a puxou um pouco revelando uma ferida purulenta na coxa. - Milena pôs as mãos na boca e disse: - Que horrível, está infeccionado! - Evandro os olhou e perguntou: - Cadê a mãe e o pai que falaram que eu ia ganhar?   
Não souberam responder e ele começou a chorar: - Cadê eles?... Me prometeram!
Júlio tinha dezesseis anos, mas porte de adulto; então Tony o puxou e falou; - Não chore! Aqui está seu pai! - depois buscou Larissa: - E aqui, sua mãe! - ele sorriu e abriu os braços: - Papai e mamãe!... Agora eu tenho papai e mamãe!
- O que vamos fazer com ele? - perguntou Diego.
- Já acionei a opção "socorro" do micro chip, estão vindo! - respondeu Tony, que a seguir obteve o restante da informação sobre o fim da TV Orion: "Na noite de 19 de outubro de 2019, toda a programação foi retirada do ar. Elenco equipes de produção e diretores saíram quase enxotados dos estúdios por seguranças a mando dos proprietários. Daiane tinha sido eliminada e saiu junto. Perguntaram pelo autista, e a resposta foi: deve ter saído também. Então fecharam as portas do estúdio". - Tony exclamou: - Canalhas!... O programa e a televisão acabaram e nada mais tinha importância. Então largaram o menino autista abandonado aqui, sem tem a menor ideia do que tinha acontecido, por cinquenta e quatro anos!
Ouviu-se o zumbido das quatro hélices da ambulância dirigível, que pairava no céu. Abriu-se uma porta na parte de baixo e três paramédicos desceram com mochilas de propulsão á vácuo, enquanto uma maca também baixava. Eles já foram examinando Evandro que, apesar da dificuldade na respiração, exultou numa alegria infantil: - Caraca,... É que nem filme!
Logo colocaram-no na maca, que recebeu sua capa de cristal oxigenado antes de ser içada. Tony se aproximou e perguntou: - Ela vai viver? - o paramédico respondeu: - Está febril, desidratado, extremamente desnutrito e com infecção generalizada. Será um milagre se chegar vivo ao hospital! - e acionou a propulsão de sua mochila. Evandro ainda acenou a eles, dizendo: - Agora tenho papai e mamãe! - antes da maca subir á ambulância dirigìvel.
Os olhos de Tony ficaram molhados ao dizer: - Chegamos tarde...

... Tony meu filho!
- Héim: - ele levantou da cama num pulo, e estava no seu quarto.
- Você está branco Tony! - falou sua mãe ao por a mão na sua testa. Ele olhou o relógio calendário sobre a cômoda: 11 de agosto de 2019. 
Uma voz ecoou na sala, era sua irmã chamando-os: - Gente, vem ver, estão apresentando os meninos participantes do programa O Grande Pai!
A mãe de Tony abanou a cabeça em desaprovação: Que absurdo! O que mais falta inventarem para aumentar a audiência?
Tony correu á sala, e a TV apresentava a logo de O Grande Pai com o homem sorridente de braços abertos. O também risonho apresentador do programa entrevistava os garotos que seriam reclusos na casa: - Como você se chama, menino?
- Evandro do Carmo! - respondeu olhando para os lados enquanto uma legenda aparecia com seu nome e a deficiência que portava: "síndrome de Asperger". O apresentador continuava: - Quantos anos você tem?
- Dez anos!
- E o que você espera desta brincadeira?
Ele respondeu rápido olhando direto a câmera: - Tem pai e mãe!
Tony viu aquilo com indignação e disse. - Não! Nós não chegamos tarde!

FIM






domingo, 6 de outubro de 2019


A MÃE DO OURO.

Que sombra é esta que te acompanha. Que não é a sua e nem a minha?
Que sombra é esta que te segue. Que não aproxima e nem afasta?
Que sombra é esta que te alcança. E te engole num só trago!

Amarildo possuía um sítio na serra de Ibitipoca, longe da cidade, como ele mesmo dizia: na roça da roça.Toda semana ia levar queijos, doces e licores produzidos no seu sítio para vender nas hospedarias, empórios e bares, em Santa Rita de Ibitipoca, na sua velha Kombi. Antes de voltar para casa, ia prosear, beber e conversar com amigos até tarde da noite.
Mas naquele dia a Tieta - como chamava sua Kombi em homenagem á uma novela da TV - acordou teimosa em pegar, e só após um pouco de insistência, seu valente motor 1.600 funcionou e Amarildo seguiu à Santa Rita. A pequena viagem foi tranquila e o engasgo foi apenas um susto. Depois de fazer as entregas, ele seguiu á rotina da prosa e ás cervejinhas antes de ir.
No bar estava um velho morador das cercanias, de nome Sebastião Ambrósio, que vez por outra ia à Santa Rita fazer compras e depois seguia ao bar para beber cerveja, porque na sua roça só tinha cachaça! Era muito velho. Diziam que teria mais de noventa anos; e quando perguntavam sua idade, ele respondia: - Sabe aquele caboclo que aparece no quadro "Independência ou morte" no canto com um carro de boi? Era eu! - e gargalhava.
Todos gostavam das suas histórias de fantasmas, que sabia aos montes. Zaca, o dono do bar, perguntou: Hei Tião, fala aí da mãe do ouro?
Ele o encarou ao responder malcriado: - Tião é a senhora sua mãe! Sou Sebastião Ambrósio! - todos riram e ele prosseguiu: - Mãe do ouro é uma assombração que aparece em lugar que tem gente enterrada sem extrema unção e sem saber que morreu! - risada. - E aqui tem muito disso: caboclo que morreu de morte matada; escravo que morreu no eito sem padre ou rezadeira pra encomendar a alma, e anjinho que morreu inocente, antes de saber que era gente! Esses espíritos ficam vagando pela mata e pelas estradas procurando o que nem eles sabem. A mãe do ouro é mandada pelo anjo da morte para buscar esses espíritos, e vai procurando eles com um lampião pelo meio do mato, nas grotas e nas estradas; mas os espíritos não são besta, e se escondem dela! Acontece que ela não pode voltar com as mãos vazias, senão o anjo da morte acha ruim. Então, pra não ser castigada, ela pega o primeiro vivo que encontra! - olhou em volta: - E o infeliz nunca mais aparece! Assim, quem precisa andar pela estrada á noite, tem que ficar esperto quando vê a luz do lampião dela no meio do mato ou na estrada. Quando a gente chega perto, ele afasta, e quando a gente afasta, ele chega perto! - olhou o relógio e disse: - A prosa tá boa, mas eu vou embora! - riso. - A mãe do ouro sai pra procurar os espíritos sempre na hora do cão: três da madrugada, e à esta hora eu já quero estar encolhidinho na minha cama! Inté. - e saiu.
- Que figura! - riu o dono do bar. Amarildo achava-o assustador.
Naquela noite, ele perdeu a noção do tempo com a prosa e o jogo de futebol que passava na TV, com seu time, Botafogo, jogando. Deu empate! Quando percebeu, era 2h12min da madrugada. Então Amarildo se despediu e saiu para a jornada ao seu sítio na velha Tieta, que fez um pouco de charme para pegar, mas funcionou.
No caminho, veio à memória uma história da sua infância. Havia uma mulher muito velha chamada Dona Santinha que costumava visitar os enfermos para rezar o terço. Ela estava sempre de luto fechado, com vestido comprido até os pés e lenço preto na cabeça, Depois da visita, era certo que o doente passava desta para a melhor rapidinho! Amarildo tinha medo dela. Seria uma mãe do ouro?
Quando estava a meio caminho ao pé da serra, Tieta começou a ratear até parar por completo. Ele insistiu e o arranque fez aquele "num vou, num vou, num vou" de que não ia pegar. Acabou arriando a bateria, fazendo Amarildo abanar a cabeça pensando na revisão que a velha Kombi clamava á tempos e ele postergava. Não havia o que fazer, e ele se viu diante duas opções: ficar na cabine esperando chegar alguém que o ajudasse, ou seguir á pé ao sítio, que daria meia hora de caminhada. Como Marilene, sua mulher, devia estar preocupada com a demora, e ali não havia sinal de celular, ele decidiu pela segunda opção. Colocou o triângulo de alerta preso á carroceria de madeira, e se pôs á caminho. Na manhã seguinte chamaria o reboque para levar Tieta à UTI da oficina.
Naquele trecho a estradinha de terra era um longo aclive cheio de curvas e grotas sombrias perto de uma pedreira. A mata entrelaçada de galhos e cipós se mostrava bruxuleante á luz da lanterninha do celular de Amarildo na noite sem lua enquanto o vento farfalhava as folhagens. Ele já havia passado ali várias vezes de madrugada á pé, mas a história contada por Sebastião Ambrósio, sobre a mãe do ouro, parecia ter lhe despertado aquele medo inconsciente do desconhecido. Lembrou-se de Dona Santinha: branca como cera e mais enrugada que um maracujá, e com aquele lenço preto na cabeça despontando seu cabelo branco e crespo. Ela costumava andar a noite com uma lanterna que emitia uma luzinha amarelada, como um lampião de querosene. - Deixa de besteira, ô! - falou e prosseguiu na sua caminhada á passos mais rápidos.
Mais adiante, numa curva, viu dois pontinhos luminosos na estrada, que vinham na sua direção. Um arrepio lhe correu o corpo inteiro e ele parou. Era apenas um cachorro preto cujas retinas refletiram a luz do celular. Amarildo apanhou um galho para espantá-lo: - Passa, capeta! - o cão fugiu para o mato e ele se recompôs, colocando-se em marcha novamente. Mas veio uma dúvida: - Uai? De quem é esse cachorro? - imaginou a resposta: "do capeta!" Olhou seu relógio, e marcava exatamente três horas da madrugada: a hora do cão! Então apertou o passo e seguiu ouvindo barulhos ao vento da mata; piados lúgubres de pássaros noturnos; um galho seco que caía; o gotejamento choroso de uma nascente nas pedras. Sons que sua mente matizava como presságios do sobrenatural!
Então escutou algo vindo de trás, na estrada; passos e gemidos. Amarildo virou a cabeça e viu uma luz amarelada seguindo-o ao longe. Isto arrepiou todos os pelos do corpo: - Ai meu pai eterno!... É ela! - e tratou de pôr sebo nas canelas para correr como nunca. Olhava para trás e a luz se perdia nas curvas; mas era só ele diminuir a marcha para ela se aproximar.
Logo chegou á porteira do seu sítio, que saltou num só pulo, sem abri-la, e correu na direção da casa. Até a chave custou a achar o buraco da fechadura enquanto ele olhava a curva da estrada; e lá vinha a mãe do ouro com sua lanterna brilhando no escuro. A porta abriu e Amarildo entrou, trancou-a novamente e se encostou ofegante a ela enquanto Marilene chegava falando: - Ocê demorou, eu já tava aflita de preocupação!... Que foi homem. Tá branco que nem papel!. - olhou suas calças. - Uai? Ocê tá mijado?  - ele se afastou falando: - Me deixa Marilene!,... Eu fui beber agua na biquinha e a fia da puta  me espirrou! - e saiu rumo ao banheiro.
 Na porteira, Bartolomeu, um homem surdo mudo que vivia mais adiante, olhava na direção da casa. Estava com sua bicicleta, de farol ligado, e deu de ombros pensando: - Eu ia ajudar "seu" Amarildo com o carro,... Ele não quis? "pobrema" dele! - e seguiu seu rumo.

FIM