sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A VILLA DO COMENDADOR MARTINELLI - CASO REAL! (foto: detalhe da ornamentação da fachada)


"existem lugares assombrados pelo mistério que os cerca!"


Há muita gente que de bom grado enfrentaria todos os mistérios e ameaças sobrenaturais em troca de um teto onde passar as noites de chuvas intempestivas. No entanto, aquele está abandonado pelo capricho de uma cigana que lhe vaticinou o abandono.”
Existem lugares que não são assombrados por fantasmas ou fenômenos poltergeist, mas pelo próprio mistério que suas paredes encerram, e o solar que por muitos anos ocupou o número 149 da Rua Oswaldo Cruz, bairro do Flamengo no Rio de janeiro, pode ser um bom exemplo disto.
Construído em 1919, o palacete obedecia ao estilo Neogótico, uma variação do Ecletismo que refletia a fascinação pela Idade Média que permeou a arquitetura e as artes a partir da segunda metade do século XIX, até meados do século XX. O arquiteto Augustin Pugin (1813 – 1852) defendia o que denominou lógica “funcional” da arquitetura medieval, enquanto John Ruskin (1819 – 1900) via na estética e na artesanía da arquitetura da Idade Média uma espécie de resgate a uma beleza suprema e espiritual.
Segundo a historiadora de Arte Giovanna Rosso Del Brenna, o estilo Neogótico no Brasil se deu por uma necessidade de criar um ambiente repleto de significações culturais que remeteriam á alta cultura portuguesa, tanto que o estilo era denominado “Neomanuelino” em alusão á arquitetura dos tempos do rei D. Manuel (1495 – 1521). Ou seja, um resgate que relembrava a grandeza dos antigos colonizadores do Brasil.
O palacete do Flamengo, ou Villa Martinelli, foi construído pelo Comendador Giuseppe Martinelli (São Donato de Luca 1870 – Rio de Janeiro 1946). Empresário e armador, ele imigrou da Itália para o Brasil em 1893, estabelecendo-se em São Paulo e nas décadas seguintes formou uma das maiores fortunas do Brasil á época. Foi dele a idealização e construção do Edifício Martinelli (O projeto foi do arquiteto húngaro William Fillinger da Academia de Belas Artes de Viena), no Centro de São Paulo, em 1924 que com seus trinta andares deteve o título de prédio mais alto da America Latina por anos. Inclusive, o Comendador se mudou com a família para um apartamento cobertura do edifício em 1929.
Voltando ao palacete e seus mistérios, um deles poderia ser a razão de um imigrante italiano escolher um estilo histórico português para sua casa ao invés de um estilo de sua terra natal, como o Fiorentino. Contudo, isto pode ter sido uma estratégia para ser aceito na sociedade carioca porque o Rio de janeiro, então Capital Federal, possuía uma grande colônia portuguesa, e ao homenagear a cultura lusitana através da chamada “mais pública das artes”, a arquitetura, seria uma forma de se integrar á elite carioca e á esfera do poder. Como referências á Itália, ele mandou erigir uma réplica da basílica de Luca nos fundos do palacete, e teria adquirido diversas obras de arte após a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) aproveitando a crise que se instaurou na Itália no pós-guerra, que incluía Michelangelo, Antonello da Messina, Giotto, Sandro Boticelli, Pietro Perugino, Leonardo DaVinci, Raphael e Giovanni Bellini.  
Contudo, a Villa não se notabilizou pela arquitetura ou a coleção de arte do seu dono, mas por uma lenda e um escândalo. Diziam que haveria uma maldição, proferida por uma cigana, de que a construção do palacete nunca deveria ser concluída sob o risco de infortúnios do destino ao seu dono. Consta que sempre havia algum acréscimo ou obra no solar, que não terminaram nem após a morte do Comendador em 1946. 
Mas ao conhecermos a história mais de perto, parece que o esforço para fugir á maldição da cigana não surtiu efeito. Giuseppe Martinelli e sua família teriam vivido no solar até 1929, quando se mudaram para o apartamento na cobertura do Edifício Martinelli, em São Paulo, recém-concluído. Porém, apesar de ter sido considerado um marco na arquitetura paulistana, logo se tornando um dos cartões postais da cidade, o prédio pode ter sido um malogro enquanto empreendimento imobiliário, pois no dia 24 de outubro de 1929 ocorreu o Crash da Bolsa de Valores de Nova York, a chamada “quinta-feira negra”, que levou a um período de depressão econômica na década de 1930 com efeitos imediatos nas exportações de café, que basicamente era o único produto de exportação brasileiro.  As atividades do Comendador Martinelli incluíam exportações através da firma Lloyd Nacional, que com o colapso nas exportações de café sentiu os efeitos da crise. Ele também esperava que a elite paulistana se encantasse com a arquitetura e o arrojo do projeto do Edifício Martinelli e adquirissem suas salas e apartamentos, o que não ocorreu.  Assim, em 1934, premido por problemas financeiros, que incluíam dívidas ainda da construção do edifício, o Comendador teve que vendê-lo ao Governo Italiano. 
É possível imaginar-se o golpe que isto pode ter representado, não só financeiramente, como no prestígio do Comendador, que voltou a viver no Palacete da Rua Oswaldo cruz com sua família; mas teria se recuperado e continuou sendo uma das maiores fortunas do Brasil.
Porém, outros revezem aguardavam-no adiante.
Simpatizante de Benito Mussolini (Predappio, 1883 – Mezzegra, 1945) líder do Partido Nacional Fascista e chefe da então República Social italiana, Martinelli chegou a convidá-lo para a inauguração da capela erigida nas dependências do palacete e o governo italiano teria enviado representantes. Esta opção ideológica encontrava eco no Brasil através de intelectuais como o escritor Plínio Salgado (São bento do Sapucaí 1895 – São Paulo 1975), criador do “Partido Integralista”, aos moldes fascistas, e do próprio governo do Presidente Getúlio Vargas (São Borja 1882 – Rio de Janeiro 1954) no período da ditadura do Estado Novo. Mas os desdobramentos históricos ao início da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1940) levaram o governo Vargas a rever sua posição, rompendo com o chamado “Eixo Roma-Berlin-Tóquio” e com Mussolini.
Como imigrante italiano, o Comendador Martinelli chegou a ter bens confiscados pelo governo á pretexto de serem de “interesse público” em 1943, incluindo sua parte acionária no Lloyd Nacional, que pode ter levado á mais um desprestígio, junto ao poder e á sociedade carioca.
A partir de então vem um período um tanto obscuro na vida pessoal do Comendador que resvalou num escândalo na sociedade carioca.  Ele se casou novamente com Rina Cataldi, trinta anos mais jovem, filha de sua lavadeira, e com ela teve um filho de nome José Benito Martinelli (primeiro sobrenome em homenagem ao ditador italiano). Segundo consta, Rina teve um caso amoroso com o então Deputado Federal Edmundo Barreto Pinto (Vassouras 1900 – 1972), tido como um arrivista que almejava ascensão social. Desgostoso ao ver a esposa vivendo com o amante na Villa, e certamente tentando evitar escândalos, o Comendador passou a ocupar anexos ao palacete no Morro da Viúva ao qual tinha acesso por um túnel que levava á um elevador. Mas o estopim do escândalo ocorreu por conta de uma reportagem veiculada na Revista “O Cruzeiro”, intitulada: “Barreto Pinto sem máscara” em 29 de junho de 1946, onde o parlamentar aparecia apenas de cuecas e fraque nas dependências da Villa com a legenda: “O amigo de Getúlio em trajes para as grandes cerimônias.”, e num dos banheiros “atendendo á telefonemas das vedetes que frequentavam seu boldoir á Avenida Atlântica, na banheira como as estrelas de cinema”. O parlamentar tentou processar os jornalistas David Nasser e Jean Manzon, autores da reportagem por má fé, mas acabou tendo seu mandato cassado por falta de decoro parlamentar; a primeira do Congresso Brasileiro.
Completamente envergonhado pelo escândalo e o ridículo que o episódio gerou, Martinelli teria fechado e abandonado a Villa, se recolhendo aos anexos no Morro da Viúva até falecer aos 76 anos em novembro de 1946, cinco meses após a reportagem de “O Cruzeiro”. Isto levou á especulações se a causa de sua morte teriam sido naturais ou crime, pois só o camalhaço de papéis listando bens do seu espólio pesava trinta quilos!  Mas não havia provas.
Na década de 1970, Sérgio Dourado, então o maior incorporador imobiliário do Rio de Janeiro, comprou a propriedade e demoliu a Villa Martinelli, erigindo no local um condomínio que, no entanto, preservou a capela, réplica da Basílica de Luca, nas suas dependências.
Desaparecia a Villa, mas não sua lenda e seus mistérios.
E assim, como disse a cigana: cumpriu-se a sentença!

Referências Bibliográficas:
BRENNA, Giovana Rosso de, Ecletismo na Arquitetura Brasileira. In FABRIS, Annateresa (org.), São Paulo, Editora Universidade de São Paulo, 1987.
LEMOS, Carlos, Ecletismo na Arquitetura Brasileira. In FABRIS, Annateresa (org.), São Paulo, Editora Universidade de São Paulo, 1987.
PUGIN, Augustin, in ENCICLOPÉDIA Del Modernismo, Barcelona, Ediciones Polígrafa S. A., p. 31, 1983.
RUSKIN, John, in ENCICLOPÉDIA Del Modernismo, Barcelona, Ediciones Polígrafa S. A., p. 31, 1983.
SOLARES e supertições. Revista da Semana, Rio de Janeiro, Cia Editora Americana, ano 47, número 35, p. 48 – 51,  31 de agosto de 1946.
 Sites:
WWW.navioseportos.com
http://www.signoredelbosco.com

Fotos da Villa Martinelli veiculadas na "Revista da Semana" de 31 de agosto de 1946.




sexta-feira, 8 de novembro de 2019

PROBLEMAS COM O CARRO.


"um objeto querido pela sociedade industrial"


O professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora, José de Arimatéia, entrou afobado na sala de aula onde alguns alunos o aguardavam. Ele estava meia hora atrasado e desculpou-se: - Desculpem; eu tive problemas com o carro, uma batida bobinha! – os alunos se entreolhavam e José se colocou diante da classe: - Este contratempo me fez refletir sobre este objeto tão querido pela nossa sociedade industrial, chamado automóvel! – era seu costume andar enquanto proferia a aula, dizia que era peripatético. E prosseguiu: - O termo vem da junção do prefixo grego “auto” á palavra em latim “móbile”, ou seja, o que se move por si mesmo. Ao contrário das carruagens que não prescindem de tração animal externa para se locomoverem, os automóveis possuem propulsão própria graças aos motores neles instalados. Mas isto faz deles realmente um objeto que se move por si mesmo?
- Sim, professor! – respondeu um aluno.
Nisto, outro aluno chamado Roberto também chegou atrasado, entrou na sala e se sentou na última carteira. Olhou para frente e não viu o professor que tinha se abaixado para apanhar sua caneta no chão, e continuou: - Mas a sua resposta pode suscitar dois questionamentos: - ele viu Roberto no fundo da sala, e seguiu: - Os veículos automotores tem capacidade de se mover, porém, não totalmente sozinhos, pois precisam de alguém que os guie, pelo menos até que se tornem autômatos, certo? Mas e se a mão que os guia não pertencer ao mundo físico, mas ao metafísico? – olhou-os. – Mais especificamente ao mundo do ocultismo e da paranormalidade?
 Todos se entreolharam, até Roberto falar: - Isso não existe!
José o inquiriu: - Por que não senhor Roberto?
- Porque espíritos não teriam corpo físico para controlar a direção de um automóvel, e duvido que haja alguém com tanto poder na mente para tal!
- Hum, eu concordo em parte. – respondeu José: - Mas vamos lembrar que ocorreram experimentos onde se conseguiu mover um trem de brinquedo apenas com as ondas cerebrais! A parte em que concordo com o senhor, é porque um automóvel seria bem mais complicado de mover do que um trenzinho elétrico ligado á eletrodos fixos á cabeça de uma pessoa! Mas,... E se não houver eletrodos, e sim uma espécie de energia capaz de interagir com o ambiente de tal modo que os movimentos de um automóvel se tornem quase autômatos?
Roberto riu: - O professor está querendo dizer fantasmas ou carros assombrados? Isso é ridículo!
-Ele respondeu: - Podemos considerar o ceticismo uma boa ferramenta para não crermos em qualquer coisa. No entanto, vou apresentar três casos que podem colocar a lógica em dúvida face ao imensurável! – ele encostou-se á mesa e perguntou: - Já ouviram falar de James Dean?
- Sim. – respondeu Roberto. - foi um jovem ator de cinema que morreu num acidente de carro. Foi um fantasma que o provocou?
Há um leve riso na sala e José continuou: - Não, foi á imprudência! Mas permita-me explicar á classe o que ocorreu. James Dean, além de ator, era piloto de corridas e em 30 de setembro de 1955 adquiriu um Porsche Spyder 550-1500s prata que usaria em competições. Para personalizar o carro, mandou escrever “little bastarad” na traseira. Traduzindo: “pequeno filho da puta” em inglês! – a classe riu; menos Roberto. – Naquele mesmo dia ele pretendia conduzir seu carro até a pista de corridas da cidade de Salinas, na Califórnia, para participar de uma competição. Porém, quando seguia pela rodovia em alta velocidade, acabou colidindo com outro carro que vinha em sentido contrário e não teve tempo de chegar ao hospital, falecendo dentro da ambulância. Foi um trauma para toda uma geração! Mas vamos focar no que aconteceu com o Porsche depois do acidente, que ficou absolutamente destruído, irrecuperável, aproveitando-se somente as peças. Seu motor foi vendido á um piloto chamado William Eschrich, que morreu numa competição em 1956, e o motor equipava seu carro na ocasião era o do carro de Dean. O câmbio e a suspensão traseira foram vendidos á outro piloto Chamado Troy Mc Henry que também morreu numa competição no mesmo ano, e seu carro estava com as peças do “little bastard”! Quando o carro batido seguia á Los Angeles para campanhas de trânsito, ele caiu da carreta que o transportava fraturando as pernas do ajudante do motorista. Ocorreram outros acidentes com vítimas até que os restos do carro foram vendidos á uma pessoa que não se identificou e os esconde até hoje! – os alunos prestavam atenção. Roberto abanou a cabeça com desdém.
O professor prosseguiu: - Segundo caso. Vocês conhecem o livro “Christine” de Stephen King, que até virou filme?
- Sim! – respondeu Roberto. – A história de um garoto que compra um Plymouth 58 do capeta que até se conserta sozinho! Queria que meu carro fosse assim.
A turma riu e José prosseguiu: - Todos nós gostaríamos de um carro autoconsertante! Mas o carro que inspirou a história não foi um Plymouth, mas um Dodge 330 Coronet 1964 que pertenceu ao Departamento de Polícia da cidade americana de Old Orchard Beach e teria mais de vinte mortes atribuídas á ele. A primeira ocorreu ainda em 1964, quando o Dodge teria atropelado uma criança de dez anos que andava de bicicleta. Só que estaria vazio e andou sozinho. Três policiais que o utilizaram nas patrulhas teriam cometido suicídio depois de matarem suas famílias em ocasiões diferentes, além de outros que se feriram também após o terem conduzido. Então em 1975 a polícia vendeu o carro pela quantia de cinco dólares á Wendy Christine Allen, mas a trajetória de mortes em torno do carro não cessou. O acidente que matou a criança anos antes se repetiu diante da casa de Wendy da mesma maneira. O menino também tinha dez anos e morreu. Nos anos seguintes cerca de quatorze pessoas morreram ou ficaram feridas ao terem contato com o carro, e isto chamou a atenção de religiosos que atribuíram possessão demoníaca ao Dodge, e tentaram destruí-lo. Os líderes dessas intentonas religiosas morreram em acidentes de carro esmagados e decapitados! Uma criança que tentou entrar no carro para brincar matou seus pais e irmãos e depois ateou fogo á casa. O carro foi roubado e desmontado num ferro velho, tendo suas peças vendidas. Mas sua dona conseguiu reunir todas as suas partes, algo extremamente difícil, e reformou o carro que hoje repousa na frente de sua casa sem ninguém tocá-lo. Aparentemente sossegou!
Roberto riu e cochichou: - Deve ter virado um lixo tão grande que ninguém quer nem de presente!
José ouvia os chistes do aluno e isto o aborrecia, mas prosseguiu: - E para não ficarmos apenas nas histórias de pessoas e carros célebres, vou contar um caso ocorrido aqui na nossa cidade, em 1969, quando um cidadão chamado Geraldo Brandão adquiriu um Renault Gordini verde claro ano 65. Um veículo usado que ele pretendia usar no trabalho e no lazer com sua esposa e filho de cinco anos. Geraldo era vendedor e faria viagens com o Gordini, e a primeira vez que o colocou na estrada começou a sentir um cheiro forte de carniça dentro do carro!
Roberto o interrompeu: - Devia ser o catalisador que fede pra caramba dentro do carro! – e riu de leve.
Um tanto irritado José retrucou: - Não existiam catalisadores nos carros naquele tempo! Posso prosseguir senhor Roberto?
- Sim professor! – respondeu com sorriso desafiador.
- Bem. Ele parou num posto de gasolina para verificar o que era. Os funcionários do posto chegaram a retirar os bancos não encontrando nada, e o cheiro acabou tão repentinamente como iniciou! Dias depois, ele saiu de casa com esposa e filho para ir ao centro da cidade, e ao fazer uma curva a direção travou fazendo o carro subir na calçada e por pouco não despencou um barranco por que Geraldo conseguiu acionar o freio de mão! Ele levou o carro á oficina que não encontrou nada de errado na caixa de direção que justificasse seu travamento. Em nova viagem repetiu-se o fedor de carniça, sem se descobrir o motivo. Então ocorreu um episódio que poderia ter tido final trágico: o Gordini estava estacionado em frente á casa da família de Geraldo, na Rua Luis Perri, que é em declive, e seu filho estava brincando no portão quando o carro começou a descer a rua subindo na calçada e só não atropelou o menino porque um vizinho o puxou a tempo dele bater no umbral do portão. As pernas do garoto seriam esmagadas no choque! Novamente ao levá-lo na oficina, não foi encontrado nenhum problema nos freios. Geraldo foi aconselhado a vendê-lo, e o fez bem rápido! Alguns dias depois, soube da notícia que o negociante que o adquiriu foi mostrá-lo o á um cliente na Estrada do Cristo e o Gordini teria perdido os freios caindo numa ribanceira, matando o negociante e o comprador. Na perícia, não encontraram nada de errado nos freios! O carro foi levado ao pátio da polícia e não se teve mais notícia dele. – deu de ombros. – Deve ter virado sucata!
Roberto passou a mão no rosto e perguntou: - Professor; o que o senhor quer que pensemos ao contar essas histórias, que existem carros assombrados?
- Não é tão simplório assim, senhor Roberto! Mas que não devemos ignorar a existência de fatores extraordinários que poderíamos chamar até de espíritos, atuando no plano físico!
- Ora professor, por favor, eu nem acredito que estou ouvindo isto na sala de aula de uma universidade! Tem explicação lógica para isto no que o senhor chama de espíritos!
- Podemos conhecer estas explicações, senhor Roberto?
Ele debruçou na carteira e todos o olharam falar: - Vamos ao ator piloto de corrida: o professor pulou uma parte da história, ou desconhece o fato de que o Porsche de James Dean apresentou problemas no freio antes da viagem á Salinas, tanto que foi aconselhado a levar o carro de carretinha; mas ele teimou e foi guiando com pé embaixo! Nada de assombração, foi uma tragédia anunciada, né professor?
- E as mortes e acidentes que aconteceram depois, como se explica?
Ele sorriu irônico ao responder: - Pilotos morrem em acidentes nas pistas desde o tempo das corridas de bigas na Roma antiga, e o fato de o carro ter caído do caminhão em cima do ajudante do motorista se chama falta de atenção á segurança, ainda mais no transporte de um carro batido! Quanto á Christine: pelo amor de deus professor; histórias de policiais que piram e fazem atrocidades há aos montes! O Dodge era um carrão americano que devia ser automático, e carros com caixas automáticas podem andar sozinhos com o câmbio deixado nas posições de marcha ao invés do neutro ou “parking”. E como o senhor mesmo disse, grupos de religiosos cismaram que o carro era possuído pelo diabo e devem ter inventado isto por que tem uma parte do caso que o senhor não sabe: a dona que comprou o carro, Wendy Allen, era tida como bruxa! – riso. – Prato cheio para fanáticos que vêm Satanás em tudo! E, cá pra nós: deve ser tudo invenção para promover o livro e o filme do Stephen King. Sabemos que Hollywood é craque em criar factoides para promover suas produções!
O professor assentiu e disse: - Realmente, senhor Roberto, suas colocações são pertinentes!
- Obrigado professor! De boa, eu também curto histórias de carros. Até sei de uma que me contaram sobre seu carro!
- É mesmo; podemos saber o quê?
- Que o seu Chevrolet Caravan já foi carro funerário! É verdade?
Todos olharam o professor, que ficou um tanto constrangido. – Sim, eu o adquiri num leilão de carros oficiais, mas tinha ciência de que tinha pertencido ao serviço funerário.
- Fale direito professor: pertenceu ao Instituto Médico Legal! O senhor não tem medo de que seu carro viesse acompanhado dos fantasmas dos defuntos que ele transportou?
- Não,... – José ia responder, mas Roberto o interrompeu: - Não acha que seu carro pode estar cheio de fatores extraordinários, ou espíritos, que podem não gostar de ver o veículo que os transportou para o necrotério em uso e tentem se vingar, e até matá-lo?
Ele ficou sem argumentos. Então uma colega entrou rápido na sala. – Pessoal, eu preciso falar uma coisa! – ela não viu o professor. – Aconteceu uma coisa muito triste: um docente que todos conhecemos, sofreu um acidente horrível, e veio a falecer! - os alunos se espantaram e José perguntou com apreensão: - Qual professor se acidentou?
- Uma tragédia! – a moça não o ouviu: - Ele colidiu numa árvore quando vinha para o campus e morreu na hora!  
 - Qual professor morreu, fala garota?
José tinha deixado sua caneta cair de novo, se levantou e ela o viu: - Ah, desculpe professor,... Eu quis dizer discente!... Nosso colega Roberto Carlos Dimitrov é que morreu neste acidente na Estrada do Cristo! – todos olharam para trás e a última carteira estava vazia. Ocorreu um silêncio sepulcral na sala até um colega falar: -... O Roberto tinha um carro antigo.
- Por caso seria um Renault Gordini,... Ano 65?
- Sim professor. E era verde,...
           
Fim

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A MALDIÇÃO DA FAZENDA. CASO REAL!


Pense bem antes de escolher o local da sua casa!”
No inicio do século XX, a fazenda do senhor João Gustavo situava-se no antigo distrito de Livramento (atual município de Oliveira Fortes na Zona da Mata, MG) num povoado denominado Formoso. Ele vivia com seus filhos e a esposa Almira, e dedicavam-se ao cultivo do café e criação de gado. Nada diferente das demais propriedades rurais em torno não fossem os fenômenos que, segundo relatos de sua filha, a Senhora Maria Clara, ocorria á qualquer hora, apavorando a família e empregados.
Ela não soube precisar exatamente quando começaram, mas seriam de extraordinária persistência. Objetos levitavam e desapareciam para reaparecem noutros lugares; pessoas eram tocadas por mãos invisíveis; aves tinham suas pernas cortadas; ouviam-se vozes com impropérios e xingamentos, e a casa foi alvejada com pedras e excrementos diversas vezes.
Os fenômenos eram variados. Panelas se erguiam do fogão de lenha durante a preparação dos alimentos e levitavam através da janela, sendo atiradas ao quintal. Dona Almira desafiava, dizendo: “pode levar que eu faço mais!”. Objetos da casa e ferramentas desapareciam para depois serem encontradas em outros lugares sem que alguém as tivesse manuseado; pessoas sentiam puxões de cabelo à noite, na cama enquanto que cobertores eram arrancados e atirados ao chão. Colchões pareciam querer se levantar e se enrolar aos pés da cama. Galinhas e patos tinham suas pernas cortadas e amanheciam agonizando no galinheiro sem que encontrasse rastro de onças ou raposas em torno. O detalhe é que á qualquer ataque de animal, as aves em pânico fariam barulho, que não ocorria. Havia um ligeiro declive ao acesso da sede da fazenda, e algumas vezes ouviram-se vozes dizendo algo como: “lá vem a urubuzada!”, e nunca descobriram de onde vinham. Em diversas ocasiões a casa foi alvejada por pedras que ricocheteavam nas paredes ou entravam pelas janelas, inclusive excrementos do curral e novamente não se descobria os autores, pois vinham de várias direções.
O caso mais intrigante envolveu um padre chamado para benzer a fazenda e espantar os “maus espíritos” que a assombravam. A sala de jantar foi preparada para a celebração com a família e empregados em volta da mesa que, repentinamente, começou a ser alvejada com excrementos de vaca que pareciam vir de todas as janelas e portas. Então o padre esconjurou os “espíritos”, ordenando que cessassem em nome de Deus, e passou a ser o alvo do bombardeio, tendo que sair correndo da casa até a porteira onde seu cavalo estava amarrado e só parou de ser alvejado quando montou e saiu á galope.
Numa segunda tentativa chamaram outro padre que chegou após uma chuva. Ele prendeu o cavalo á porteira e o guarda chuva aberto á um mourão de cerca, seguindo á sede da fazenda, onde conseguiu realizar a bendição sem problemas. Parecia estar tudo resolvido e o padre seguiu á porteira para ir embora, mas quando foi apanhar seu guarda chuva, ele estava no chão amassado como se fosse uma bola de papel e seu cavalo tão assustado que quando o soltou da porteira foi preciso segurar firme o cabresto para que não fugisse.
Estes fenômenos fizeram a fazenda ganhar fama de mal assombrada, e isto afugentava os empregados. Logo depois, com o colapso da Bolsa de valores de Nova York em 1929, veio o declínio repentino da atividade cafeeira no Brasil que levou as propriedades que se dedicavam á aquela cultura á ruína, e a fazenda do senhor João Gustavo não foi exceção. Mais tarde ele contraiu glaucoma e ficou cego, tendo que se mudar para o núcleo urbano. Abandonada, a sede da fazenda foi demolida, não havendo mais relatos de fenômenos sobrenaturais no lugar.
Há alguns fatores a serem considerados na análise do caso. A tradição oral sem documentação pode conter incoerências que coloque em dúvida sua autenticidade; mas os acontecimentos não foram testemunhados apenas pela senhora Maria Clara, mas por diversas pessoas que teriam presenciado os fenômenos. O pesquisador Roger Laffororest (Paris, 1905 – 1998) afirma que se uma só pessoa relata acontecimentos insólitos, pode ser considerada neurótica, mas se várias pessoas relatam a mesma coisa, há que se dar-lhes algum crédito, ou pelo menos é indício que algo estranho está ocorrendo.
Outro fator, é que litígios e brigas do senhor João Gustavo com vizinhos e empregados poderia provocar retaliações ou mesmo vinganças. Ou seja, em tese os fenômenos poderiam ter sido feito propositalmente por pessoas vivas e não forças sobrenaturais, como os apedrejamentos. Mas da maneira que são descritos, vindo de várias direções, demandaria um grande numero de pessoas atirando pedras e excrementos até pelas janelas, e em algum momento isto seria percebido. O mesmo vale para os insultos e xingamentos ouvidos á entrada da fazenda.
 Objetos que desapareciam e reapareciam noutro lugar poderia ser creditado á meros lapsos de memória. Episódios como os puxões de cabelo e cobertores atirados ao chão poderia ter origem em pesadelos e movimentos involuntários durante o sono, ou mesmo sonambulismo. Objetos levitando e voando pela janela poderiam ser provocados pelos próprios moradores, lembrando que estamos falando numa sociedade rural, patriarcal e repressora, onde este tipo de farsa poderia atuar como quebra na normalidade e fragilização no papel repressor do “homem da casa”. O mesmo valendo para a mutilação das aves.
O pesquisador Roger Laffororest (Paris, 1905 – 1998) classificou esses logradouros como “locais maléficos” ou “vórtices de energias” ou ainda caixas de ressonância das energias desprendidas pelo sofrimento, ódio, ira que se manifestaria à presença de um agente, ou médium. Ou seja: um ou mais membros da família do senhor João Gustavo poderia ser este agente. Assim, os fenômenos relatados na fazenda poderiam ser classificados como “poltergeist”, ou traduzido do alemão: “espírito brincalhão” que seria o responsável por desordens como deslocamento de móveis e objetos sem intervenção física de uma pessoa assim como coisas que desapareceriam para reaparecerem em outro lugar, definido na parapsicologia como “aporte”. Outro fator é que na maioria dos casos há a presença de um adolescente no lugar onde ocorre o “poltergeist”, determinando um reflexo dinâmico das energias sexuais não utilizadas ou reprimidas. Na família existiam meninas na adolescência que poderia ser os agentes provocadores dos fenômenos sobrenaturais relatados. Laffororest afirmava que o próprio homem poderia produzir vórtices de energia, e que tais fenômenos seriam a manifestação disto, influenciando o ambiente.
No entanto se levarmos em conta que o padrão patriarcal e repressor á sexualidade, á mulher e nas relações de trabalho era a regra geral no início do século XX, assim como conflitos entre vizinhos, há que se perguntar por que somente a fazenda do senhor João Gustavo foi acometida de tantos fenômenos paranormais? Reportando Laffororest: ele cita os autores A. de Bélizal e P. A. Morel que denominaram o “caminho das energias telúricas” como linhas que cortariam o globo terrestre em todos os sentidos, se cruzando em vários momentos. A cada intersecção destas ocorreria superposição de forças criadora dos vórtices, como ponto crítico de uma frequência vibratória, e qualquer coisa, edificação ou pessoas colocadas exatamente sobre esses vórtices, poderia sofrer influências que se materializariam sob a forma de fenômenos como poltergeist, aportes, levitações e etc. Ou seja, a fazenda do senhor João Gustavo estaria numa destas intersecções. Haveria ainda outros fatores vetoriais aos fenômenos, como falhas geológicas e cursos d’água subterrâneos, capazes de também formar vórtices.
É preciso também considerar a localização da fazenda numa área por onde passariam estradas vicinais, ao largo da Estrada Real (que ligava a região aurifica da Capitania das Minas Geraes ao Rio de Janeiro). É sabido que eram utilizadas no contrabando de ouro no período colonial, e existem inúmeras lendas sobre escravos que para preservar o segredo desta atividade, eram mortos e enterrados sem os ofícios religiosos, e assim se tornariam almas penadas, ou espíritos de desencarnados na visão espírita. Contudo, isto não seria unanimidade entre os parapsicólogos, pois os espíritas acreditam que almas penadas poderiam interagir com médiuns que se tornariam vetores desses fenômenos, enquanto que os espiritualistas não creem na ação direta de espíritos dos mortos e sim numa espécie de ação residual das suas vidas, mas sem espírito. Portanto, como foi dito acima, seriam pessoas vivas produzindo vórtices capazes de criar “fantasmas”.
Chega-se a conclusão que toda a perturbação que a família do senhor João Gustavo passou, deu-se pelo azar de construir sua casa no lugar errado. Assim, como o próprio Laffororest aconselhava: pense bem antes de escolher o local de sua casa!  
  
Referências bibliográficas:
DICIONÁRIO do Inexplicado, Edições Planeta, São Paulo, São Paulo, Grupo de Comunicação Três Ltda., número 131 – B, 1° Volume, p. 15; p. 48 – 54.
DICIONÁRIO do Inexplicado, Edições Planeta, São Paulo, São Paulo, Grupo de Comunicação Três Ltda., número 132 – B, 2° Volume, p. 32; p. 48.
DICIONÁRIO do Inexplicado, Edições Planeta, São Paulo, São Paulo, Grupo de Comunicação Três Ltda., número 133 – A, 3° Volume, p. 10 - 20; p. 48 – 54.
DUBUGRAS, Elsie, As Casas Assombradas, Fronteiras do desconhecido, Revista Planeta, São Paulo, Grupo de Comunicação Três Ltda., numero 147/-A, p. 16 – 21,  dezembro de 1984.
DUBUGRAS, Elsie, Chuva de pedras (verdadeiras) em Goiás, Fronteiras do desconhecido, Revista Planeta, São Paulo, Grupo de Comunicação Três Ltda., numero 147/-A, p. 44 - 45,  dezembro de 1984.
DUBUGRAS, Elsie, Os Fantasmas de Borley House, Fronteiras do desconhecido, Revista Planeta, São Paulo, Grupo de Comunicação Três Ltda., numero 145/-A, p. 05 – 09,  dezembro de 1984.
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