sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A ENCRUZILHADA DO LOBISOMEM.


"...a garota atravessou a rua, passando pela calçada, e em instantes um vulto a seguiu."


Onze horas da noite e reinava o silêncio na pequena cidade mineira de Santa Rosa de Minas. No céu a lua cheia matizava os morros num tom prateado envelhecido enquanto três jovens conversavam: - Você entendeu tudo que tem que fazer Jana? – ela respondeu: - Sim André: vou passar na frente da casa dele e se dermos sorte ele vai me seguir. – Berto enfatizou: - Evidente que vai! Aí nós seguiremos vocês de longe e gravamos tudo! – mostrou seu celular enquanto André espiava: - Hoje está perfeito: nem uma alma viva na rua. Então Jana: vamos agir! – a garota olhou a casa amarela com luzes a janela, atravessou a rua e passou pela calçada pisando firme para fazer barulho e em instantes um vulto saiu pelo portão e a seguiu. – Beleza, ele mordeu a isca! – Falou André acionando o GPS que daria a exata localização de Jana e o homem misterioso. Os dois aguardam cinco minutos e saíram atrás deles.
Andaram alguns metros e uma mulher franzina de cabelos pretos e óculos se interpôs. Eles tentaram se esquivar, mas ela falou enérgica: - Parem! Meu nome é Ione e há dias venho manjando vocês se escondendo nas moitas da praça a noite. O que está acontecendo? – Berto respondeu: - Nada não dona, estamos a passeio aqui, só isso! – ela retrucou: - Ah, então vocês vieram nesse fim de mundo apenas pra passear, ou é para se drogar?  Sou da roça, mas não sou boba; comecem á se explicar ou vou chamar o delegado que mora logo ali na esquina! – os dois se assustaram e num impulso Berto segurou-a tapando-lhe a boca e a arrastaram para a praça. Então André falou: - Fica calma! Não somos malfeitores e nem maconheiros, somos investigadores! – ela olhou de lado: - De quê?... Da polícia?  - André respondeu: - Não!... A senhora já ouviu falar do YouTube?
- Claro que sim, eu não sou nenhuma mulher das cavernas, e daí?
- É que eu, Berto e Jana, temos um canal chamado “Rumo do Mistério” onde postamos vídeos de assombrações, monstros e outros fenômenos paranormais! Nós andamos pelas cidades de Minas a procura dessas lendas para postar no nosso canal, e soubemos que aqui tem um homem que se transforma em lobisomem nas noites de lua cheia, como esta. Então investigamos: o nome dele é Ranulfo Dias. A senhora o conhece?
- Sim, ele mora ali,... Mas, repito: e daí?
- Bem: a Jana acabou de passar na frente da sua casa, e ele a seguiu! A gente está só dando um tempinho aqui para segui-los e gravar a transformação dele... – ela os interrompeu: - Minha nossa, vocês são o quê; retardados ou doidos? Olhem bem a rua, é sexta-feira e está todo mundo trancado em casa, e vocês não adivinham por quê?
- É por que tá fazendo frio? – perguntou Berto.
- Não, panguá! É porque ninguém quer ser apanhado pelo lobisomem! Ranulfo foi o sétimo filho da família e normalmente já é um sujeito estranho, peludo e tão cabeludo que a franja lhe cai nos olhos, mas nas noites de lua cheia ele se transforma! Suas mãos viram patas com garras afiadas enquanto sua mandíbula e seus dentes aumentam. Ah, poucos viveram para contar o que viram; ele vira um monstro cuja única vontade é matar para se alimentar de carne fresca e sangue e aposto que amanhã vamos achar cavalos, vacas ou qualquer outro animal morto e estraçalhado pelo mato,... Espere,... A amiga de vocês serviu de chamariz?
- Sim senhora! Vamos segui-los,... – respondeu André. - Temos localização pelo GPS, e quando ele começar a transmutação, vamos gravar tudo! Deixamos um carro escondido e fugiremos...! - Ione os interrompeu, apavorada. – Vocês não ouviram o que eu falei? Com um só golpe ele mata os dois, a amiga de vocês corre muito perigo! Para aonde ela foi?
- Para uma estradinha que tem uma encruzilhada com poste de luz; escolhemos porque é claro e daria para gravar! – falou Berto assustado.
- Minha nossa, é a “Encruzilhada do Lobisomem” aonde ocorreram ataques á várias pessoas!... Os corpos foram encontrados aos pedaços!
- Vou avisá-la pelo celular,... Mas,... Tá sem sinal! – falou André, aflito.
- Isto é sinal que ele vai atacar isto sim! Mas não podemos perder tempo, temos que impedir que ela chegue à encruzilhada antes de encontrá-lo. Eu vou com vocês; tem um atalho pela mata! – e saíram correndo a fim de evitar o pior.
Enquanto isto Jana seguia pela estrada escura apenas com a lanterna do celular simulando uma caminhada normal como se procurasse um endereço. Antes não estava com medo, mas agora sozinha naquela estradinha desconhecida, a coisa se mostrava mais assustadora do que dava a antever. Então escutou gritos que ecoavam lúgubres na escuridão da noite, fazendo-a se apavorar. De repente, viu uma pessoa correndo pela estrada, era Berto que vinha na sua direção em pânico e gritando: - Corre Jana!... O lobisomem nos pegou!
Eles correram e ela perguntava: - cadê André?
- O monstro matou ele!... Corre! – haviam deixado o carro escondido atrás de um bambuzal antes da encruzilhada, mas quando chegaram a ele, Berto falou: - A chave do carro,... Cadê!
- Não tá com você?
- Oh, não!... – mexia nos bolsos: - Ficou com André! – Ouviu-se um uivo seguido de um rosnado e os dois correram pela estrada até chegarem à encruzilhada e pararem abaixo da luz azulada da lâmpada fixa no postinho de madeira roliça ladeado por cercas de arame farpado que se perdiam na escuridão. – E agora?... O que a gente faz?
- Não sei Jana!... – ele apanhou seu celular. – Merda, tá sem sinal!
- Me diz o que aconteceu Berto?
Ele tomou fôlego e contou: - Uma mulher da cidade avisou a gente do lobisomem, que era perigoso,... – pôs as mãos na testa em pânico: - Fomos uns idiotas achando que não tinha perigo!... A mulher veio com a gente e o lobisomem apareceu tentando atacá-la! André quis defendê-la, e o monstro matou ele com um só golpe, Jana! Aí eu saí correndo!... André morreu Jana!... – e chorou compulsivamente.
Mas não houve tempo dela responder nada, porque o lobisomem apareceu por trás do poste e atacou Berto, rasgando seu pescoço com unhas afiadas como navalhas espirrando jatos de sangue. Jana saltou para trás, caindo no meio da encruzilhada onde ficou paralisada ao ver o ultimo olhar de Berto tomado pelo pânico da morte. O lobisomem deitou seu corpo a beira da estrada, rasgando-lhe o peito, arrancando seu coração, devorando-o em dentadas frenéticas.
A moça sequer pôde gritar ante aquela cena horripilante, mas conseguiu identificar no chão um objeto que caiu do bolso da bermuda de Berto no arranco do ataque; era a chave do carro! Ela se esgueirou pelo chão, apanhando a chave para correr na direção do automóvel o mais rápido que pôde enquanto o lobisomem devorava as vísceras do rapaz; porém, ao vê-la fugir, ele rosnou, pois ainda não estava saciado. Então largou a carcaça ensanguentada e saiu em perseguição a Jana, que já apontava o controle que destravava e abria as portas do carro e entrou, mas o nervoso a fez deixar as chaves caírem no assoalho. Em desespero ela as procurou enquanto o lobisomem alcançou o carro, dando murros na lataria e rasgando a capota. Jana gritou na hora em que ele arrebentou o para brisa, arrancando-o num só golpe e viu aquele vulto gigantesco se debruçando sobre ela, que apenas posicionou suas mãozinhas alvas sobre a face ante ao trágico desfecho daquela aventura. Um arrepio lhe correu pelo corpo ao sentir que as garras do monstro lhe tocaram:
- Pare agora! – irrompeu uma voz: era Ranulfo que chegou. – Ela não! – o lobisomem rosnou com suas unhas afiadas já se encostando ao pescoço de Jana, que olhou o homem com franja ruiva lhe cobrindo a fronte enquanto ordenava. – Saia daí!... Agora! – ela sentiu um estranho fascínio pela sua figura enquanto o lobisomem erguia suas garras ao alto num uivo. Ranulfo dirigiu-se a Jana: – Saia daqui garota, rápido! – naquele instante ela encontrou as chaves, ligou o carro e falou: - Fuja também... Vem comigo!
Ele respondeu: - Não!... Vá embora!
O lobisomem rugiu e ela saiu em disparada, sem olhar para trás.
Semanas depois a polícia encontrou os corpos de André Simeon Fichel e Norberto Eisenmann, enterrados próximo à “Encruzilhada do Lobisomem” no município de Santa Rosa. Os jornais noticiavam o estado em que foram encontrados os cadáveres e a falta de pistas sobre o autor dos homicídios. A população garantia ter sido ataque de lobisomem e indicavam um vídeo que corria no YouTube, mostrando a transmutação de uma pessoa não identificada em lobisomem como prova do que diziam, mas as autoridades eram céticas quanto a estas “bobagens sobrenaturais” e acreditavam num latrocínio seguido de ocultação de cadáver.

Enquanto isto Jana conferia o número de acessos ao canal “Rumo do Mistério”, que chegava à incrível marca de quinhentos mil! Na condição de sobrevivente ao ataque de um lobisomem, sua agenda estava lotada de entrevistas, inclusive no exterior. Ela sentia pela morte de seus amigos, mas acreditava que a vida tinha que seguir.

Em Santa Rosa, Ione seguia pela calçada, calada e altiva como sempre. Jamais perdoaria Ranulfo por não tê-la deixado usufruir de sua caça. Era ela a sucessora do mito do lobisomem; uma mulher que se tornou loba por opção. – Idiota e romântico!... Ainda acabo com ele! – resmungava enquanto andava.

Na cidade Jana acabava de fechar o notebook enquanto acariciava a franja ruiva da sua nova paixão, que se transmutou para a gravação do vídeo só porque ela pediu.
Já planejavam uma viagem. Ele preferia Londres, e ela, Nova York!

Fim

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A MÉDIUM.


"eu ouço gente morta!"


Margot se preparava para se deitar repetindo o ritual de colocar um fone de ouvidos conectado à um iPod com uma seleção de musica clássica, jazz, MPB ou qualquer melodia suave. Na verdade ela preferiria o silêncio da noite á qualquer som, mas só assim conseguia dormir, e se perguntava até quando precisaria daquilo; parafraseando aquele garoto do filme que dizia: “eu vejo gente morta!”, só que a sua frase era: “eu ouço gente morta!”.
 Tudo começou no dia que alugou uma casa antiga e passou a ser perturbada pelo espírito de uma mulher que o marido assassinou e escondeu seu corpo atrás de uma falsa parede. A morta atentou Margot até conseguir que a encontrasse para assim a libertar!  Depois disso o seu sossego é que acabou. Descobriu que era médium e passou a ser, por assim dizer, assediada por todo tipo de espírito em busca de ajuda, sempre após a meia noite. Alguns pedidos eram totalmente sem noção, como: “Diga ao meu gatinho que a ração está na prateleira de baixo no armário!” Ou então: “Estou preso aqui em baixo, me ajude!” E este era o tipo que trazia mais frustração porque nem sempre ela descobria á que se reportava. Até detetives passaram a procurá-la em auxilio á investigações! Um belo dia ela disse “chega”, e como era funcionária do Estado, não foi difícil conseguir transferência de Belo Horizonte para Juiz de Fora. Por pouco não mudou de nome também!
Agora vivia num apartamento quitinete no bairro São Mateus e fazia de tudo para ficar longe de qualquer coisa minimante sobrenatural. O fone de ouvido era a maneira encontrada para abafar o falatório dos espíritos.
Era inicio de madrugada e ela estava quase adormecendo ouvindo “Blue moon” na voz de Ella Fitzgerald, quando pareceu ter escutado choro de criança. – Não é possível! – irritou-se, mas prestou atenção, tirou o fone e não parecia nenhum espírito e sim uma criança chorando de verdade, e vinha do corredor do prédio. Ao espiar no olho mágico viu um menino agachado com sua cabeça baixa chorando e encostado á porta do apartamento ao lado. Era o filho da vizinha.
Margot abriu a porta: - Oi garoto!
Ele a olhou e imediatamente pediu: - Me ajuda moça? – ela chegou perto e se agachou: - Sim, o que aconteceu? – ele disse: - Minha mãe,... Eu preciso saber a onde ela está!
 - Como você se chama?
 - Júnior!
 - Eu sou Margot. Diga o que aconteceu Júnior?
- A minha mãe arranjou um namorado que bate nela! Um homem mau que ela conheceu numa festa e gostou dele; eu não gostei! No começo ele tratava ela bem, mas depois começou a maltratar e ela quis acabar o namoro. Ele não aceitou e começou a bater nela! – Margot ouvia-o consternada. – Mamãe pediu ajuda na polícia e um moço de lá mandou ele ficar longe! Hoje quando eu voltei do colégio, não tinha ninguém em casa, e o homem telefonou pra ela dizendo que queria pedir perdão e conversar. Mamãe saiu com ele e eu não queria que ela fosse! Agora ela sumiu.
- Como se chama sua mãe?
- Danielle Arruda Santos! Quando eu voltei do colégio, não tinha ninguém em casa.
- Você não pode entrar na sua casa? – ele respondeu: - Não tenho a chave! Por favor, me ajuda! – começou a chorar: - Ele chama Wesley e vai matar a mamãe!
Margot o confortou: - Eu vou te ajudar!... – e lhe estendeu a mão. – Venha para minha casa! – Júnior a seguiu ao seu minúsculo apartamento entrou e ela ficou uns segundos sem saber o que fazer até o menino falar: - Liga pro policial que ajudou a gente!
Ela pensou: - Aposto que foi na Delegacia da Mulher. E perguntou: - Você sabe o nome do policial que a ajudou?
- É Arquimedes! Liga pra ele moça! – Margot apanhou seu notebook,  e logo estava conversando com uma atendente explicando a situação, mas ela disse que não podia fazer nada á àquela hora. Então Margot perguntou: - Aí tem um policial chamado Arquimedes? – a atendente respondeu afirmativa e passou a ligação. – Boa noite; detetive Arquimedes na linha. Estou falando com quem, por favor? – Margot explicou o que estava acontecendo e o policial lhe disse que Wesley era um sujeito violento com denúncias de agressão á mulheres, e completou: - Ocorre que a senhora Danielle fez a queixa num dia e voltou no outro para retirá-la. Nós não poderemos fazer nada até pelo menos vinte quatro horas do seu desaparecimento. – Margot olhava o garoto e respondeu quase sussurrando: – Mas senhor Arquimedes, vinte quatro horas é tempo demais!... A mãe dele pode ser abusada e até,... – não quis falar a palavra. O policial então respondeu: - Olhe senhora Margot: o que posso fazer é verificar se ela deu entrada em algum hospital ou no IML. Infelizmente, se ela desapareceu por volta de uma da tarde, e agora são quase uma e quarenta da noite, é uma hipótese á ser considerada. – Margot se assustou, mas aceitou, e como ele estava de plantão combinaram manter contato caso houvesse alguma notícia e de manhã levariam o caso á delegada. Ela agradeceu e desligou.
Júnior escutou-a: - A mamãe tá morta e não querem me falar!
Margot o acudiu: - Não!... O detetive Arquimedes vai encontrá-la!
- Não vai! Ele não sabe onde ela está. – soluçava ao dizer: - Precisa saber onde ela está e levar a polícia lá!... – e se jogou no travesseiro chorando.
Ela o confortou: - Daqui a pouco o detetive vai ligar. Você vai ver!... Não chore. Eu vou ficar aqui com você! – ele se aninhou no seu colo.

 Passava das duas horas da manhã quando o telefone tocou: era Arquimedes falando que não havia registro da sua entrada em nenhum hospital, mas haviam encontrado o corpo de uma mulher negra sem documentos e abandonado ás margens do Rio Paraibuna, muito mutilado, que se adequava ao biótipo de Danielle. Houve um silêncio ensurdecedor até Arquimedes falar. – Estou esperando alguém me render aqui para seguir até ao IML e tentar identificá-la. É o que posso fazer. – Margot agradeceu, desligou e ficou extremamente angustiada ao olhar o rostinho de Júnior, adormecido, mas ainda com marcas das lágrimas á face. – Meu deus,... Não posso ficar aqui sem fazer nada!
Ela relutou por alguns minutos até falar para si: - Ah, mas que droga!... Não tem outro jeito! – com cuidado para não acordá-lo, Margot seguiu ao banheiro e fechou porta. Sentou-se numa banqueta, cerrou seus olhos, se concentrou e falou: - Vocês é que sempre me procuram com pedidos, que eu atendi na medida do possível!... Agora sou eu que peço socorro, não para mim, mas para esse garotinho ao qual posso sentir todo o medo que emana do seu espírito!... Portanto eu imploro: alguém aí do plano espiritual, me ajude! – passaram-se longos quinze minutos e nada. Ela olhava para os lados sem resposta alguma. – Meu deus,... Será que, como disse um psiquiatra, é tudo loucura da minha cabeça?
Mais dez minutos, e vencida pela frustração ela lamentou: - Como eu imaginei,... Nunca houve nada e o medico tem razão: sou esquizofrênica. – então saiu do banheiro com o coração apertado e foi á cozinha beber água. Quando enchia o copo, escutou uma voz. – Olá? – ela quase deixou o copo cair e olhou para os lados na busca da certeza: - Quem é?... Quem é? – escutou uma risada: - Não reconhece mais a voz de uma amiga? – Margot recordou da noite que encontrou o corpo de Silvia emparedado. Ela colocou uma bolinha de gude no meio da copa e ela rolou na direção da parede falsa onde seu cadáver estava escondido. – Silvia é você? – ela respondeu: - Sim. Sou muito grata por ter me libertado, mas não iria me apresentar num banheiro!... Eu era uma mulher muito fresca em vida, e acho que aqui, no outro lado, não tomei jeito! – Margot sorriu: - Graças á deus! Eu preciso de ajuda. Quero saber onde está uma pessoa,... Se ela está viva. É possível? – Silvia respondeu: - Querida; aqui nós não somos interligados como numa rede social, não é assim! – decepcionada: - Então, não dá? – a resposta: - Desta maneira infelizmente não. Mas,... Podemos tentar algo: você conhece bem a pessoa que quer saber onde está? – Margot: - Sim, é minha vizinha de porta! – Silvia: - Então, imagine a figura dela o máximo que poder, com todas as forças da sua mente! – Margot fechou os olhos e lembrou-se das vezes que viu Danielle: uma negra alta com cabelo afro, muito sorridente. Depois de vários minutos sem resposta, Silvia falou: - É pouco!... Precisa que você toque em algo que ela tenha tocado muito! – abanando a cabeça Margot respondeu: - Eu teria que entrar na casa dela, e está trancado! – a resposta: - A maçaneta da porta; ela deve tê-la tocado dezenas de vezes. Lembre-se que você é a peça chave para isto dar certo! – rapidamente ela saiu ao corredor do prédio e segurou firme a maçaneta, e logo sentia arrepios pelo corpo e um tremor. Então começou a formar uma imagem na sua mente: uma sala; um sofá; a silhueta de um homem corpulento segurando uma mulher pelo braço, sacudindo-a enquanto ela rogava: “me deixe ir embora... Acabou, vê se entende”. O homem a esbofeteou e gritou: “ainda não entendeu que nada acabou e você é minha?” empurrou-a na cama e tentou fazer sexo á força. – Margot ficou horrorizada e falou voltando do transe: - Que nojo esse,... Animal! – já ia soltando a maçaneta quando Silvia falou: - Não a solte ainda, agora tente ver á onde eles estão! – com toda a força da sua mente, Margot se concentrou e se viu caminhando num lugar estranho, com carros desmontados; era um ferro velho. Ela andou mais um pouco e viu uma piscina cheia até o meio com água suja tendo varias carcaças de carros em volta, e mais nada. Então, exausta ela voltou do transe e se sentou no chão. – Que lugar é aquele?... Um cemitério de automóveis com uma piscina no meio? Isto não existe. - Silvia falou: - Não é porque você nunca o viu que o lugar não existe. E a moça está lá! – ela respondeu: - Tem razão,... E sei quem pode me dizer á onde é!
                  
Arquimedes acabava de escutar a explicação de Margot pelo telefone e falou: - Deixe ver se eu entendi direito. A senhora entrou num transe mediúnico e conseguiu ver o lugar á onde a senhora Danielle está!... É isto?
- Exatamente!... O Wesley a sequestrou e a mantém em cárcere! É um sujeito repulsivo e violento,... Vai matá-la! O senhor precisa ir lá junto com um pelotão de policiais!
- Um momento,... Lá aonde?
- Nesse lugar que eu falei; que tem carros abandonados em volta de uma piscina!
- Mas a senhora sabe onde é?
- Eu já não disse que não sei?... As mensagens dos espíritos não vêm com endereço!... Estamos perdendo tempo, ela corre perigo!...
- Espere, espere senhora Margot: precisaria ter uma denúncia para podermos agir!
- Então eu estou fazendo a denúncia!
- Não é assim,... Uma denúncia sem descrição do lugar onde estaria ocorrendo o delito, nós não teríamos como averiguar. Posso registrar um boletim de ocorrência do desaparecimento da senhora Danielle,...
Margot interrompeu: - Eu não sou uma doida que tem delírios!... Estou falando sério; ela está correndo perigo eminente de vida e eu sei á onde ela está. Daqui a pouco será tarde demais!... Alô, senhor Arquimedes?
Ele retornou: - Desculpe, é que eu encontrei o boletim lavrado às seis da tarde notificando desaparecimento da senhora Danielle. Foram seus colegas do trabalho que alertaram.
- Está vendo senhor Arquimedes, eu estou falando a verdade!... O senhor sabe a onde é este lugar que eu descrevi! – blefou: - Sou médium, e estou vendo que o senhor sabe!
- Está bem, eu sei! Há um desmanche de carros abandonado situado na BR-040 que tem uma piscina em ruínas, perto do Mirante!... Mas mesmo assim, não posso designar uma patrulha baseado numa premonição...
- Bem, estou vendo que não dá para contar com a polícia sem ter a informação exata! Eu vou lá conferir e então faço a denuncia!...
- Não faça isto senhora!... É perigoso, pode ter viciados e ladrões por lá!... Ah, está bem, me dê seu endereço e espere na porta que passo aí. Vamos os dois! - ela deu o endereço e se preparou para sair. Antes chegou perto de Júnior que estava acordado e disse: - Vai salvar minha mãe! Eu fico quietinho aqui esperando. – Margot se surpreendeu com a atitude do garoto e antes de sair lhe deixou um telefone recomendando que ligasse á qualquer problema ou notícia de sua mãe. Ele concordou e se aninhou mais ainda no cobertor.

Chegaram rápido ao local na beira da rodovia. Havia um portão quebrado e por trás um terreno repleto de carros acidentados muito destruídos já tomados pelo mato. Arquimedes certificou-se de estar vazio e seguiram a diante. Era um cenário assustador á luz da lanterna do policial e Margot caminhava olhando em torno; estava confusa. Em instantes se aproximaram de um buraco quadrado no chão com bordas azulejadas em ruínas e cercado de carcaças de todo tipo de veículo, inclusive dentro da piscina.
- E então senhora Margot: onde é?
Ela olhou em volta, pôs as mãos na cabeça e disse. – Não sei!... O lugar que eu vi não era assim! A piscina não estava tão arruinada e tinha água dentro!... Não é aqui, não é aqui!
Arquimedes passou as mãos nos cabelos curtos e falou: - Tudo bem! Realmente não há nenhuma construção em volta: só esse monte de sucata!... Vamos embora!
De volta no carro ela não se conformava: - Eu vi!... Não é loucura, eu vi! - Arquimedes tentava acalmá-la: - Tudo bem. Nós tentamos né? - Ela prosseguia: - Eu vi!... Era uma piscina grande com água suja até o meio. Parecia que tinha umas casas atrás!... Meu deus do céu, eu não sou louca! – Margot disse isto no momento que passavam diante do Mirante da BR-040. Então Arquimedes parou. – Será que?... – e deu ré para entrar numa estradinha que saia por trás de um bar e seguia num declive: - Aqui na frente tem um condomínio fechado que está vazio e tem uma piscina! - em minutos começaram a aparecer carcaças de carros abandonadas dos lados da estradinha. – Olhe só: um desmanche de carros roubados! – explicou, e Margot falou. – Foi isto que eu vi! – olhou adiante e apontou. – Pare aqui, pare aqui! – mal o carro parou para ela saltar e correr a diante. Arquimedes até se assustou: - Espere aí,... Sua maluca! – e saiu correndo atrás.
- É aqui! – ela parou diante de uma grande piscina que ainda continha uma lâmina de água suja no fundo. Em torno havia mais carcaças de carros. – É aqui, ela está aqui!
Arquimedes tapou sua boca e pediu silêncio apontando á uma casa mais longe que estava com luz acesa. Tinha uma camionete nova parada na entrada. Ele recomendou á Margot, sussurrando: – Eu vou até lá. Vá para o carro e espere. Se acontecer alguma coisa, toque a buzina, está bem? – ela concordou e ele seguiu até a casa, mas antes pediu que enviassem uma patrulha á aquele local, com urgência.
Devagar, Arquimedes se aproximava da casa tomando cuidado para não fazer barulho, pois havia entulho e cacos de vidro na calçada, e ouviu uma voz: era Wesley que gritava. – Você acha que é boa demais para mim, é isso? – ele olhou pela janela e o homem segurava Danielle pelo braço. – Acabo com você e o catarrento do seu filho! – e tentou esganá-la, e esta foi á deixa para Arquimedes chutar a porta e entrar com sua arma em punho: – Afaste-se dela! É a polícia! - ele respondeu, largando-a no sofá: - O que é isso? Estamos só conversando! – ainda apontando a arma ele ordenou: - Coloque as mãos para o alto e se deite no chão, agora! – cínico Wesley falava: - Qual é doutor. É só uma conversinha com a minha noiva. – riso. – Sabe como é? Tem hora que a gente precisa mostrar quem manda! – Arquimedes ordenou novamente: - No chão, e coloque as mãos para trás! – ele obedeceu e se deitou. O policial se aproximou apanhando as algemas que trazia no bolso do casaco e pôs o joelho nas costas de Wesley preparando-se para algemá-lo. Porém, ele era um homem grande e forte que se levantou num arranco, se virou e segurou a mão armada de Arquimedes enquanto lhe aplicava um soco na barriga. Lutaram, e ele conseguiu lhe desferir um golpe no rosto com um “soco inglês”, fazendo-o perder a arma. Atordoado o policial caiu no chão enquanto Wesley se abaixou para pegá-la: - Perdeu play boy, perdeu! – riu enquanto lhe apontou a arma: - Tu não sabe que briga de casal ninguém se mete? Pera aí: é o policialzinho da delegacia das Mulher! – Arquimedes o olhou ainda zonzo com sangue escorrendo do nariz enquanto Wesley se preparou para atirar: - Vai ser menos um filho da puta no mundo! – então se ouviu uma voz: - Ei gostosão. Olha pra cá! – Wesley se virou e deparou com uma figura estranha se aproximando: - Que porra é essa? – a figura respondeu: - Meu nome é Ângela e sou a realização dos seus sonhos! – e apontou Danielle desacordada num sofá velho: – Você nem gosta de mulher, baby, e é por isso eu vim aqui só pra você! – era um travesti que foi chegando perto. Wesley o ameaçou: - Sai fora, seu viado!... Eu atiro! – a figura respondeu: - O que é isso, fofo, nós dois sabemos do que você gosta. Se achegue comigo! – assustado e confuso Wesley atirou contra a figura e nada aconteceu: - Assim eu fico magoado, sabia? – chegou mais perto. – Já vi tudo: é mais um enrustido covarde igual ao que me largou aqui! – o homem deu vários passos para trás depois de atirar mais vezes.
Então, já refeito, Arquimedes aproveitou para atacá-lo agarrando-o pelo pescoço e derrubando-o. Wesley perdeu a arma e o policial lhe deu socos na cabeça, atordoando-o e algemando-o á uma grade. – Obrigado amigo. – falou olhando a figura, que parecia estranha e flácida enquanto Margot estava parada á porta com sua boca aberta de onde saía uma espécie de cordão branco ligando-a á figura, que colocou as mãos nos quadris e disse: - De nada querido! Acho que agora está tudo resolvido por aqui. – e se desintegrou como que se derretesse. Wesley começou a voltar a si e Arquimedes apanhou sua arma e apontou para ele. – Quieto aí. Acabou! – estranhamente o homem abaixou a cabeça no chão e começou a chorar. O policial correu até Margot que estava estática com os olhos virados para trás. – Senhora?... Margot? – ela pareceu voltar a si, e disse. – Héim?... O quê? – olhou em volta. – Como vim parar aqui?
- Eu é que pergunto... Não mandei ficar no carro?
- Eu não sei o que aconteceu,... – olhou-o: - Você está sangrando! – ela viu Danielle gemer ferida no sofá e correu para acudi-la: - Sou sua vizinha, Margot; como você está? – com dificuldade, perguntou: -... Cadê meu filho? – ela respondeu: - Ele está na minha casa,... Não fale,... Agora está tudo bem! – Arquimedes a olhava totalmente perplexo. - Não fique aí parado, chame a ambulância para socorrer Danielle!
- Ah, sim,... Claro! – Arquimedes apanhou o telefone para chamar o socorro.
 Margot confortava Danielle quando ouviu a voz de Silvia: - Garota, você é boa!
- Do que você está falando, boa no quê? – sussurrou.
- Não seja modesta, você é uma maga! Conseguiu materializar o espírito com ectoplasma para enganar esse brutamonte! Se eu tivesse matéria, ficaria absolutamente arrepiada. – riso.
- Ainda não entendo do quê está falando,... Ectoplasma?
- É a substância que os médiuns produzem com o próprio corpo para materializar os espíritos!... Depois explico. E diga ao seu amigo policial para fazerem uma busca por aqui. Tem um cadáver enterrado em algum lugar. – suspiro: - assassinado e escondido, como aconteceu comigo.
 O socorro veio e levaram Danielle ao hospital. Wesley foi levado preso; suspeitava-se que era também um ladrão de carros que usava aquele local para desmanche.
Arquimedes ficou impressionado com o que viu, e disse que se empenharia em vasculhar aquela área em busca de algum cadáver escondido.
Amanhecia quando Margot entrou na sua quitinete: - Júnior!
 O garoto se levantou rápido já perguntando: - Cadê minha mãe?
- Ela está bem! Teve que ir para o hospital, mas já está medicada e bem!
- Eu quero ver ela!
- Sim, vai ver! Mas antes eu vou levá-lo á casa de uma amiga da sua mãe chamada Maria, que vai ficar com você até ela poder voltar pra casa!
- E o homem mau?
- Está preso na cadeia, não precisa mais ter medo dele! Sua mãe disse para você pegar roupas, escova de dente e seu material escolar, a chave da sua casa está aqui.
 Ele a abraçou. – Obrigado, á você sua amiga!
- Amiga?...
- Essa dona que está aí do lado! Vocês é um casal que moram juntas aqui?
Margot ouviu a gargalhada de Silvia e respondeu: - Somos só amigas! Agora se apresse porque Maria está esperando. – Júnior saiu correndo e Silvia falou: - Essas crianças de hoje! Ele pensou que somos um casal homoafetivo, hilário!
- Espere um pouco: como ele pode te ver e eu não?
- Não sei, crianças enxergam coisas que adultos não conseguem. Vai ver que você é desses médiuns que só ouvem,... E também produz ectoplasma!
- Mas, se eu a libertei, por que ainda está aqui no plano físico?
- Ahn,... Disseram que sou um espírito de luz, mas preciso ficar ainda um tempo na terra fazendo o bem para purificar meu carma. – riso. - Está certo. Fui uma menina muito má quando viva! Hei Margot: fazemos uma boa dupla, e quem sabe se chamarmos aquele policial para fazermos um trio, ninguém ia poder com a gente! O que me diz?
Margot só olhou para cima e disse:
- Oh deus!...

Fim

domingo, 1 de dezembro de 2019

O NATAL VAZIO.


"era a casa mais antiga da rua; via-se no frontispício o ano de 1934 como marco da construção."


Depois de muitos anos com placas de “vende-se” caindo ressecadas de tanta exposição, a casa de número 99 da Rua Verdi finalmente entrava em reforma, indicando que teria novo proprietário.
Era um belo exemplar em estilo Art Decó, com ornamentação em formato de escadas e círculos concêntricos na fachada cinzenta, que apesar dos anos de abandono, estava íntegra, e o novo dono pretendia mantê-la o mais original possível, pois era a casa mais antiga da rua; via-se no frontispício ano 1934 como marco da construção. A vizinhança era composta por novos moradores em prédios de apartamentos modernos que não conheceram seus antigos donos e nem sua história, apenas na escritura constava o nome do espólio de Moema Ebenézer Aborgast, mas foi negociado por um advogado, herdeiro, que não se interessou em ficar com o imóvel. Melhor para Alexandre, o novo dono que pretendia viver na casa com a esposa, Amarílis, e o filho Guilherme.
A reforma foi relativamente simples porque estava em bom estado de conservação, e como pretendiam preservá-la, as obras mais complexas e adaptações restringiam-se á parte elétrica e hidráulica. Amarílis era arquiteta, e estava deslumbrada por detalhes, como os lustres e arandelas de opaline com pingentes de cristal e os vitrais coloridos com motivos geométricos na escadaria. Alexandre era advogado, e se sentia bem na amplitude do pé direito de quase cinco metros do primeiro andar e no magnífico piso em tacos de peroba rosa; já Guilherme, fã do Batman achava o máximo viver numa casa cuja arquitetura parecia saída direto de Gothan City!
Mudaram-se ao final de outubro e fizeram uma festa de inauguração que ganhou as colunas sociais. Todos se encantaram pela beleza da vivenda e no aprumo da reforma que a manteve original sem abrir mão dos confortos contemporâneos. No jantar, Alexandre prometeu uma festa de Natal memorável para aquele fim de ano.
A primeira noite na casa foi de amor para o casal, enquanto Guilherme assistia á seus filmes de Batman, reconhecendo semelhanças da sua casa com as dos cenários fabulosos das histórias.
No início de novembro, o garoto estudioso já havia passado de ano para orgulho dos pais, e assim podia eventualmente matar uma ou outra aula, quando ficava andando em busca dos detalhes arquitetônicos da casa: - Pai! – chamou-o. – Sim, filho! – ele apontou á uma espécie de degrau que separava a imensa sala de estar em dois ambientes. – Tem um quebrado aqui, o senhor viu? – Alexandre se aproximou, e viu um pequenino talhe na quina do mármore vermelho do degrau, algo que não tinha notado. Imaginou descuido de algum operário na reforma, mas ao passar os dedos no quebrado, sentiu suas pontas gastas pelo tempo; isto o aliviou, pois significava um dano antigo do tempo dos primeiros moradores. Ele sorriu e disse: - Isto faz parte da história da casa, filho!  - o garoto assentiu e perguntou sobre outro detalhe: - E aquela parte da parede que é diferente? – apontou a um lugar entre duas pequenas janelas compridas onde havia uma discreta marca em formato de meio círculo. – Ah! – abanou a cabeça: - Ali já teve uma lareira que foi tapada; mas ficaram os antigos dutos da chaminé até ao terraço.
- Por que tiravam a lareira, pai?
- Deve ter sido porque não era usada. – riso. – Nesse calor tropical, realmente não faz sentido.
- O senhor vai mandar fazer do novo?
- Não temos fotografia e nem projeto original da casa para sabermos como era; assim não é possível reconstruir! – respondeu dando de ombros.

Enquanto isto Amarílis entrava numa mercearia no bairro para compras e foi recebida por uma senhora chamada Dirce que, sorridente, elogiou: - Ah, nós ficamos muito felizes ao vermos que a casa não ia ser demolida para construção de mais um caixote de cimento! É última casa antiga do bairro. – e apontou fotos com ruas na década de 1930 em quadrinhos ás paredes. – Olha ela aqui! – Amarílis aproximou e viu a foto da casa, nova em folha, com decoração natalina no jardim e a data: 23 de dezembro de 1934. A foto era muito boa, podendo ver-se a silhueta de uma árvore de natal imensa á janela da sala de estar.  – Que linda! – exultou. – Parece que as pessoas que viveram na casa eram festeiras, héim? – Dirce respondeu: - Nem tanto. Cheguei a conhecer a senhora Moema, dona da casa. Muito idosa, ela viveu sozinha na casa até 1989, quando faleceu, e minha irmã mais velha foi sua acompanhante nos últimos anos de vida. Era viúva e sempre andava de preto dos pés a cabeça e depois, como não tinha ninguém, a casa foi fechada.
- Oh,... Que interessante. – falou Amarílis, um pouco decepcionada com a banalidade da história. Conversaram mais um pouco, e ela agradeceu entes de voltar para casa.
Quando entrou, viu Alexandre retirando algo muito pesado de um canteiro no jardim adiante da casa, pareciam pedras. – O que está acontecendo aqui?
- Amor!... Descobrimos que esta casa já teve uma lareira na sala de estar!
- Ah, sim. – interrompeu Amarílis: - Aquela marca em arco na parede, mas o tem a ver com estes pedaços de pedra?
- É porque eles são exatamente os umbrais da boca da lareira que foram enterrados aqui! Não é fantástico? – falou enquanto os arrumava no chão, formando uma espécie de boca de túnel em arco de mármore vermelho. – Talvez sem ter o que fazer com os entulhos, acabaram jogados aqui. Sabe quem os encontrou? – apontou ao filho Guilherme, que sorriu com suas mãos sujas de terra, e disse: - Vim brincar aqui no jardim com o Batman. – trazia o boneco na mão. – E eu achei! Agora papai falou que vamos fazer a lareira de novo!
Alexandre aproximou de Amarílis dizendo: - Mas só se você tiver paciência para tolerar mais obras em casa!
- Se é para fazer, que seja direito; né amor? – respondeu Amarílis, e se beijaram. Guilherme exultou feliz. – Oba! A minha casa vai ter lareira que nem nos filmes!
Naquela tarde o empreiteiro Alcino acompanhado de um ajudante quebraram a parede revelando a lareira escondida. Ele enfiou o pescoço pelo duto, dizendo: - Parece que está inteiro doutor Alexandre,... – pisou em pedaços de carvão: - Esta lareira foi usada, olhe os restos de lenha! – e ordenou a ao ajudante que os recolhesse numa pá. – Taparam a boca da lareira sem limpá-la. – observou.
- Conseguem terminar até o final de dezembro? – perguntou Amarílis.
- Sim senhora! A lareira era embutida e está tudo ainda aqui, até a chaminé.
Amarílis sorriu e Alexandre perguntou: - Você ama esta casa, não é?
- E qual arquiteta não adoraria viver nesta obra de arte cheia de história?  A irmã da dona da mercearia conheceu a dona Moema, e estou com vontade de perguntar como era a família que viveu aqui!
- Esquece isto, querida; a família que viverá aqui agora é a nossa e seremos muito felizes! – e se beijaram.
Mais tarde Amarílis retornava do trabalho e viu os entulhos retirados da lareira arrumados em sacos para serem descartados. Ela ia passando direto quando algo lhe chamou atenção: eram cacos de vidro vermelho misturados às cinzas e restos de carvão. Ou melhor: eram cacos de cristal! Ela riu e abanou a cabeça ao lembrar-se que, quando criança, quebrou uma xícara de porcelana e escondeu os cacos num vaso de antúrios para não levar bronca; e certamente alguém teria feito o mesmo com um copo ou cálice partido.

Em quinze dias a lareira estava reconstituída, imponente como um túnel ferroviário em miniatura de mármore vermelho trazendo um medalhão ao centro com as letras “J, E, A”. – Eu descobri que são as iniciais do nome do marido da dona Moema: Joaquim Ebenézer Aborgast! – falou Alexandre. – Era fazendeiro, empresário, e morreu em 1942. O que achou amor? – ela olhou a lareira, e o que a princípio pareceu boa ideia, tornou-se estranho. Mas, não entendendo o porquê do súbito estranhamento, elogiou para não desagradar. – É maravilhosa, querido!
- Tem outra novidade: Guilherme quer uma árvore de natal, mas não como as compradas em lojas. – tirou um papel com imagens da internet. – Mas igual a estas: - eram fotos de árvores de natal norte americanas enormes, feitas com pinheiros naturais e salpicadas de enfeites. – Eu procurei saber onde comprar isto no Brasil, e encontrei. Estou pensando em encomendar uma para marcarmos bem o nosso primeiro Natal aqui, e fazer um agrado ao nosso filho. O que você acha amor?
Amarílis respondeu: - Prefeito! Como eu disse: se é para fazer, que seja direito! – e se abraçaram.  Mas o estranhamento persistia, e ela debitava isto ao stress da obra.

A ideia era fazer uma grande festa natalina, convidando amigos, sócios e clientes da arquiteta e do advogado, além de vizinhos. Dirce ficou contente pelo convite, só lamentou a irmã não poder vir de Manaus para a festa. Naquela tarde conversavam na mercearia, e ela revelou: - Dione, minha irmã que acompanhou a dona Moema, tinha muita pena porque seu marido, que chamava Joaquim, batia muito nela e no filho.
- O casal então tinha filhos?
- Até onde eu sei, apenas um! – respondeu Dirce ao que Amarílis divagou: “se tinha um filho como herdeiro, porque o advogado se apresentou como tal?”. A mulher completou: - Que horror era aquele tempo que as mulheres tinham que apanhar caladas! – Amarílis concordou. Agradeceu e retornou á casa; mas antes ligou á Alexandre falando deste filho da dona Moema, que em tese seria o herdeiro. O marido disse que não mencionaram isto no negócio, mas era bom investigar para não haver problemas.
De volta, Amarílis foi conferir uns projetos no AutoCAD, quando viu o boneco do Batman, jogado no corredor, á porta do quarto de Guilherme. – Uai, ele nunca larga esse boneco! – e seguiu ao quarto do filho, encontrando-o agachado perto da cama, brincando com cacarecos de brinquedos imundos que sujavam suas mãos e a colcha. Ela se aproximou e viu que ele usava uma jaqueta de brim encardida e rasgada. – Guilherme, o que é isto?... Esses brinquedos velhos e essa roupa suja; tire isto já! – obrigou-o a se despir da jaqueta e perguntou: - Onde você arranjou este lixo?
- No porão mãe!... Tem uma mala debaixo da escada cheia de coisas!
Ela encarou-o: - Me mostre, agora!

Bem mais tarde e mais calma ela falava ao marido: - Estava tudo num vão escondido em baixo da escada e tapado com uma parede de tijolos que Guilherme conseguiu quebrar: malas com roupas e brinquedos, tudo mofado, sujo e cheio de bichos!
Alexandre completou. – São brinquedos muito antigos que se estivessem perfeitos seriam antiguidades valiosas. Carrinhos, trenzinhos, mas enferrujados e podres! Puxa vida amor, você é arquiteta, inspecionou a casa e não viu isto?
- Eu olhei cada centímetro daquele porão e não vi! – suspiro. – E quanto aos restos da lareira enterrados no canteiro; eu mesma arrumei a terra e plantei as mudas, e não vi nenhum sinal daquilo lá! Eu cavei fundo e repito: não havia nada daquilo enterrado naquele canteiro!
- Acalme-se amor!... Estava enterrado fundo, e às vezes você não percebeu, não por desatenção, mas, porque realmente era algo inusitado! – ele segurou as mãos da mulher: - desculpe. Acho que essa reconstrução da lareira foi demais para nós. – abanou a cabeça: - Coisa inútil uma lareira nos trópicos; por isto a taparam!
- Não diga isto; ficou tão lindo! Talvez eu tenha ficado tão encantada pela arquitetura desta casa, que realmente não prestei atenção! Mas agora que está pronto, vamos curtir e fazer uma festa de Natal para ficar na história! – falou Amarílis beijando o marido, e seguiu ao quarto do filho.  Alexandre ficou a sós, pensando: “se há brinquedos e roupas de criança na casa, é porque a história do filho da dona Moema procede.”.
Ela entrou com cuidado e Guilherme dormia. Aproximou e deu-lhe um beijinho de boa noite; depois pegou seu boneco do Batman e o colocou ao seu lado, no travesseiro, como o filho gostava, e saiu.
 Minutos depois, Guilherme o apanhou e atitou-o ao chão.

Dias depois, a árvore seria entregue. Combinaram que Amarílis sairia com o filho para um passeio no shopping enquanto Alexandre arrumaria a arvore para surpreender o filho.
Durante o trajeto de carro, Guilherme falou: - A cidade está diferente.
- Está chegando o Natal, e há mais movimento e carros nas ruas. – respondeu a mãe, sem deixar de notar o olhar perdido do filho. Então perguntou: - Você está gostando da nossa casa,... – riso: -... Nossa antiga casa nova?
- Sim. Está igual antes! – respondeu o garoto. Amarílis achou a resposta um pouco estranha, mas não perguntou mais nada.
Quando retornaram á casa, ela abriu a porta e a árvore estava montada e enfeitada com bolas coloridas, cordões dourados, guirlandas, bengalinhas listradas, laços e luzes coloridas que piscavam. Era enorme e quase tocava o teto. Alexandre estava exausto, mas contente ao perguntar. – E então, filho: é assim que você queria?
O garoto caminhou até a árvore, e falou. – Tá igualzinha; supimpa!
O pai riu: - Nossa filho, de onde você tirou esta gíria antiga? – o menino não o ouviu e perguntou: - Cadê a estrela que fica no topo?
Alexandre olhou e coçou a cabeça ao responder: - Puxa vida, que mancada!... Eu esqueci de colocar!
- Coloque agora, pai!
- Não pode ser mais tarde, Guilherme? O pai está meio cansado de subir e descer a escada, que até já guardei!
- Não!... Tem que ser agora!
Amarílis interveio: - O que é isso, filho? Seu pai disse que está cansado; vamos deixar para logo, ou amanhã!
- Não, não!... Eu quero agora!
A mãe ia repreendê-lo, mas Alexandre a cortou: - Tudo bem amor; ele está certo, é melhor fazer isto logo,... Como você diz sempre: se é para fazer, que seja direito! Vou á garagem buscar a escada.
O garoto sorriu, mas Amarílis não achou aquilo certo, e decidiu que ela colocaria a estrela no topo da árvore, á mais de quatro metros de altura, no lugar do marido. Nisto a campainha tocou: era Dirce. – Olá querida,... Desculpe incomodar; vim porque não tenho seu telefone!
- Algum problema, dona Dirce?
- Não exatamente,... Eu estava conversando com Dione por telefone, e falei que a casa que ela trabalhou não ia ser demolida e,... Vou ser sucinta: ela quer falar com você, Amarílis. Está esperando ao telefone fixo lá na mercearia!
- Precisa ser agora? Passe-me o número dela que eu telefono mais tarde!
Sem jeito Dirce insistiu: - Ela está um pouco aflita, disse que é urgente!... Ela é idosa, eu gostaria que compreendesse e viesse falar com ela. Por favor!
Amarílis assentiu e chamou o filho para acompanhá-la: - Não! Eu fico esperando o pai!
- Está bem. Daqui a pouco eu volto! – e saiu seguindo Dirce á mercearia, que se desdobrava em desculpas pelo inconveniente. Viu Alexandre abrindo a porta da garagem e avisou: - Já volto!
Na mercearia, apanhou o fone e disse: - Alô, aqui é Amarílis!...
Nem houve tempo para cumprimentos: - Preciso falar com você sobre uma coisa que Dirce me contou: que vai fazer uma festa de Natal na casa, e até iam fazer uma arvore bem grande!... É verdade?
- Sim, senhora Dione! Estávamos montando-a neste instante!...
- Oh não!... Pelo amor de deus, não deixe seu marido subir para colocar qualquer enfeite no alto da árvore!... – Amarílis ia retrucar, mas ela prosseguiu: - Ouça-me, não sou uma velha gagá como pode parecer; quando fui cuidadora da senhora Moema, ela confidenciou-me que seu marido Joaquim era um homem autoritário, ciumento e violento, que a agredia e também á Júnior, seu filho único que tentava defendê-la. Então, sempre no Natal, Joaquim encomendava uma árvore cada vez maior, e fazia questão de pôr uma estrela de cristal vermelho no topo, pessoalmente! – Amarílis lembrou-se dos cacos vermelhos no lixo. Dione prosseguiu: - No Natal de 1942, ele espancou a esposa por ciúmes, na frente de Júnior, e depois chamou os empregados para o verem colocar a estrela no topo da árvore. Oh,... Então o menino empurrou a escada, derrubando o pai que bateu a cabeça na quina de um degrau e morreu na hora! O garoto ficou apavorado e saiu correndo para se esconder no porão; mas não viu que o alçapão do poço estava aberto, e caiu, morrendo também!... Isto não é delírio de uma velha maluca, não deixe seu marido fazer isto!... Alô,... Alô?
Amarílis nem a esperou terminar e correu de volta á sua casa o mais rápido que pôde.
Alexandre estava em pé no ultimo degrau da escada de armar, se esticando para conseguir alcançar o alto da arvore para colocar a estrela: - Segure a escada aí Guilherme; estou quase conseguindo!
O garoto segurava a escada com as duas mãos, e tinha os olhos vidrados quando começou a balançá-la: - Ei,... Não balance a escada,... Assim não consigo! – Sem apoio, teve que largar e estrela que se espatifou no chão ao mesmo instante que Amarílis abria a porta.
Alexandre tentava apoiar as mãos na própria árvore enquanto ordenava: - Pare com isto Guilherme!... Não tem graça!
Obedecendo á um impulso, Amarílis falou: - Júnior; olhe para cá! – ele a olhou com olhos sem brilho: - É a mamãe!
Alexandre estranhou e perguntou: - O que esta havendo,... – a esposa fez gesto para que se calasse, e prosseguiu. – Não faça isto Júnior!... Está tudo bem; eu estou aqui!
O menino falou: - Ele vai bater na gente de novo!... Isso tem que acabar... E aí a gente pode ir embora desse inferno, mãe!
- Então venha comigo, agora!... Você quer ir embora, não é Junior?
Ele chorou ao dizer: - Eu quero ir embora daqui!... Eu quero a minha mãe!
- Então venha!... Ela vem te buscar!
O garoto largou a escada e seguiu na direção de Amarílis, que o abraçou com força. Alexandre nem acreditou quando viu dois vultos etéreos saindo ao lado de Amarílis e Guilherme, e depois sumiram no ar.
- Mãe!... Tá me apertando! – reclamou o filho. – ela o fitou, e seu olhar tinha voltado ao normal. – Que aconteceu? – se virou para trás. – Que árvore grande!... E esquisita.
Alexandre desceu da escada e os abraçou. – Pois é filho,... Grande demais, né? Eu vou devolver!
E continuaram abraçados.

Dias depois, a mudança saía da casa Art Decó, de volta ao antigo apartamento. Alexandre e Guilherme aguardavam Amarílis que se despedia de Dirce: - Muito obrigada a você e sua irmã Dione. Sem vocês minha família seria destruída.
- Que pena. Uma casa tão linda! Você acha que o espírito de Júnior encontrou a paz?
- Espero que sim!... Mas perdemos completamente a vontade de viver na casa. Vamos colocá-la a venda novamente!... Adeus Dirce, e mais uma vez, obrigada! – despediram-se com beijos, Amarílis entrou no carro, e partiram.

No interior da casa, uma voz grave e sem som clamava: - Moema,... Júnior!...Malditos, abandonaram-me,... Malditos!

Fim.