sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
"...a garota atravessou a rua, passando pela calçada, e em instantes um vulto a seguiu."
Onze
horas da noite e reinava o silêncio na pequena cidade mineira de Santa Rosa de
Minas. No céu a lua cheia matizava os morros num tom prateado envelhecido
enquanto três jovens conversavam: - Você entendeu tudo que tem que fazer Jana?
– ela respondeu: - Sim André: vou passar na frente da casa dele e se dermos
sorte ele vai me seguir. – Berto enfatizou: - Evidente que vai! Aí nós
seguiremos vocês de longe e gravamos tudo! – mostrou seu celular enquanto André
espiava: - Hoje está perfeito: nem uma alma viva na rua. Então Jana: vamos
agir! – a garota olhou a casa amarela com luzes a janela, atravessou a rua e passou
pela calçada pisando firme para fazer barulho e em instantes um vulto saiu pelo
portão e a seguiu. – Beleza, ele mordeu a isca! – Falou André acionando o GPS
que daria a exata localização de Jana e o homem misterioso. Os dois aguardam
cinco minutos e saíram atrás deles.
Andaram
alguns metros e uma mulher franzina de cabelos pretos e óculos se interpôs.
Eles tentaram se esquivar, mas ela falou enérgica: - Parem! Meu nome é Ione e há
dias venho manjando vocês se escondendo nas moitas da praça a noite. O que está
acontecendo? – Berto respondeu: - Nada não dona, estamos a passeio aqui, só
isso! – ela retrucou: - Ah, então vocês vieram nesse fim de mundo apenas pra
passear, ou é para se drogar? Sou da
roça, mas não sou boba; comecem á se explicar ou vou chamar o delegado que mora
logo ali na esquina! – os dois se assustaram e num impulso Berto segurou-a
tapando-lhe a boca e a arrastaram para a praça. Então André falou: - Fica
calma! Não somos malfeitores e nem maconheiros, somos investigadores! – ela
olhou de lado: - De quê?... Da polícia?
- André respondeu: - Não!... A senhora já ouviu falar do YouTube?
-
Claro que sim, eu não sou nenhuma mulher das cavernas, e daí?
-
É que eu, Berto e Jana, temos um canal chamado “Rumo do Mistério” onde postamos
vídeos de assombrações, monstros e outros fenômenos paranormais! Nós andamos
pelas cidades de Minas a procura dessas lendas para postar no nosso canal, e soubemos
que aqui tem um homem que se transforma em lobisomem nas noites de lua cheia,
como esta. Então investigamos: o nome dele é Ranulfo Dias. A senhora o conhece?
-
Sim, ele mora ali,... Mas, repito: e daí?
-
Bem: a Jana acabou de passar na frente da sua casa, e ele a seguiu! A gente
está só dando um tempinho aqui para segui-los e gravar a transformação dele...
– ela os interrompeu: - Minha nossa, vocês são o quê; retardados ou doidos?
Olhem bem a rua, é sexta-feira e está todo mundo trancado em casa, e vocês não
adivinham por quê?
-
É por que tá fazendo frio? – perguntou Berto.
-
Não, panguá! É porque ninguém quer ser apanhado pelo lobisomem! Ranulfo foi o
sétimo filho da família e normalmente já é um sujeito estranho, peludo e tão
cabeludo que a franja lhe cai nos olhos, mas nas noites de lua cheia ele se transforma!
Suas mãos viram patas com garras afiadas enquanto sua mandíbula e seus dentes
aumentam. Ah, poucos viveram para contar o que viram; ele vira um monstro cuja
única vontade é matar para se alimentar de carne fresca e sangue e aposto que
amanhã vamos achar cavalos, vacas ou qualquer outro animal morto e estraçalhado
pelo mato,... Espere,... A amiga de vocês serviu de chamariz?
-
Sim senhora! Vamos segui-los,... – respondeu André. - Temos localização pelo
GPS, e quando ele começar a transmutação, vamos gravar tudo! Deixamos um carro
escondido e fugiremos...! - Ione os interrompeu, apavorada. – Vocês não ouviram
o que eu falei? Com um só golpe ele mata os dois, a amiga de vocês corre muito
perigo! Para aonde ela foi?
-
Para uma estradinha que tem uma encruzilhada com poste de luz; escolhemos porque
é claro e daria para gravar! – falou Berto assustado.
-
Minha nossa, é a “Encruzilhada do Lobisomem” aonde ocorreram ataques á várias pessoas!...
Os corpos foram encontrados aos pedaços!
-
Vou avisá-la pelo celular,... Mas,... Tá sem sinal! – falou André, aflito.
-
Isto é sinal que ele vai atacar isto sim! Mas não podemos perder tempo, temos
que impedir que ela chegue à encruzilhada antes de encontrá-lo. Eu vou com
vocês; tem um atalho pela mata! – e saíram correndo a fim de evitar o pior.
Enquanto
isto Jana seguia pela estrada escura apenas com a lanterna do celular simulando
uma caminhada normal como se procurasse um endereço. Antes não estava com medo,
mas agora sozinha naquela estradinha desconhecida, a coisa se mostrava mais
assustadora do que dava a antever. Então escutou gritos que ecoavam lúgubres na
escuridão da noite, fazendo-a se apavorar. De repente, viu uma pessoa correndo
pela estrada, era Berto que vinha na sua direção em pânico e gritando: - Corre
Jana!... O lobisomem nos pegou!
Eles
correram e ela perguntava: - cadê André?
-
O monstro matou ele!... Corre! – haviam deixado o carro escondido atrás de um
bambuzal antes da encruzilhada, mas quando chegaram a ele, Berto falou: - A
chave do carro,... Cadê!
-
Não tá com você?
-
Oh, não!... – mexia nos bolsos: - Ficou com André! – Ouviu-se um uivo seguido
de um rosnado e os dois correram pela estrada até chegarem à encruzilhada e
pararem abaixo da luz azulada da lâmpada fixa no postinho de madeira roliça
ladeado por cercas de arame farpado que se perdiam na escuridão. – E agora?...
O que a gente faz?
-
Não sei Jana!... – ele apanhou seu celular. – Merda, tá sem sinal!
-
Me diz o que aconteceu Berto?
Ele
tomou fôlego e contou: - Uma mulher da cidade avisou a gente do lobisomem, que
era perigoso,... – pôs as mãos na testa em pânico: - Fomos uns idiotas achando
que não tinha perigo!... A mulher veio com a gente e o lobisomem apareceu
tentando atacá-la! André quis defendê-la, e o monstro matou ele com um só golpe,
Jana! Aí eu saí correndo!... André morreu Jana!... – e chorou compulsivamente.
Mas
não houve tempo dela responder nada, porque o lobisomem apareceu por trás do poste
e atacou Berto, rasgando seu pescoço com unhas afiadas como navalhas espirrando
jatos de sangue. Jana saltou para trás, caindo no meio da encruzilhada onde
ficou paralisada ao ver o ultimo olhar de Berto tomado pelo pânico da morte. O
lobisomem deitou seu corpo a beira da estrada, rasgando-lhe o peito, arrancando
seu coração, devorando-o em dentadas frenéticas.
A
moça sequer pôde gritar ante aquela cena horripilante, mas conseguiu
identificar no chão um objeto que caiu do bolso da bermuda de Berto no arranco
do ataque; era a chave do carro! Ela se esgueirou pelo chão, apanhando a chave para correr na
direção do automóvel o mais rápido que pôde enquanto o lobisomem devorava as
vísceras do rapaz; porém, ao vê-la fugir, ele rosnou, pois ainda não estava saciado.
Então largou a carcaça ensanguentada e saiu em perseguição a Jana, que já apontava
o controle que destravava e abria as portas do carro e entrou, mas o nervoso a
fez deixar as chaves caírem no assoalho. Em desespero ela as procurou enquanto
o lobisomem alcançou o carro, dando murros na lataria e rasgando a capota. Jana
gritou na hora em que ele arrebentou o para brisa, arrancando-o num só golpe e
viu aquele vulto gigantesco se debruçando sobre ela, que apenas posicionou suas
mãozinhas alvas sobre a face ante ao trágico desfecho daquela aventura. Um
arrepio lhe correu pelo corpo ao sentir que as garras do monstro lhe tocaram:
-
Pare agora! – irrompeu uma voz: era Ranulfo que chegou. – Ela não! – o lobisomem
rosnou com suas unhas afiadas já se encostando ao pescoço de Jana, que olhou o
homem com franja ruiva lhe cobrindo a fronte enquanto ordenava. – Saia daí!...
Agora! – ela sentiu um estranho fascínio pela sua figura enquanto o lobisomem
erguia suas garras ao alto num uivo. Ranulfo dirigiu-se a Jana: – Saia daqui
garota, rápido! – naquele instante ela encontrou as chaves, ligou o carro e
falou: - Fuja também... Vem comigo!
Ele
respondeu: - Não!... Vá embora!
O
lobisomem rugiu e ela saiu em disparada, sem olhar para trás.
Semanas
depois a polícia encontrou os corpos de André Simeon Fichel e Norberto
Eisenmann, enterrados próximo à “Encruzilhada do Lobisomem” no município de
Santa Rosa. Os jornais noticiavam o estado em que foram encontrados os
cadáveres e a falta de pistas sobre o autor dos homicídios. A população
garantia ter sido ataque de lobisomem e indicavam um vídeo que corria no
YouTube, mostrando a transmutação de uma pessoa não identificada em lobisomem
como prova do que diziam, mas as autoridades eram céticas quanto a estas “bobagens
sobrenaturais” e acreditavam num latrocínio seguido de ocultação de cadáver.
Enquanto
isto Jana conferia o número de acessos ao canal “Rumo do Mistério”, que chegava à incrível marca de quinhentos mil! Na condição de sobrevivente ao ataque de um
lobisomem, sua agenda estava lotada de entrevistas, inclusive no exterior. Ela
sentia pela morte de seus amigos, mas acreditava que a vida tinha que seguir.
Em
Santa Rosa, Ione seguia pela calçada, calada e altiva como sempre. Jamais
perdoaria Ranulfo por não tê-la deixado usufruir de sua caça. Era ela a
sucessora do mito do lobisomem; uma mulher que se tornou loba por opção. –
Idiota e romântico!... Ainda acabo com ele! – resmungava enquanto andava.
Na
cidade Jana acabava de fechar o notebook enquanto acariciava a franja ruiva da
sua nova paixão, que se transmutou para a gravação do vídeo só porque ela
pediu.
Já
planejavam uma viagem. Ele preferia Londres, e ela, Nova York!
Fim
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
"eu ouço gente morta!"
Margot
se preparava para se deitar repetindo o ritual de colocar um fone de ouvidos
conectado à um iPod com uma seleção de musica clássica, jazz, MPB ou qualquer
melodia suave. Na verdade ela preferiria o silêncio da noite á qualquer som,
mas só assim conseguia dormir, e se perguntava até quando precisaria daquilo;
parafraseando aquele garoto do filme que dizia: “eu vejo gente morta!”, só que
a sua frase era: “eu ouço gente morta!”.
Tudo começou no dia que alugou uma casa antiga
e passou a ser perturbada pelo espírito de uma mulher que o marido assassinou e
escondeu seu corpo atrás de uma falsa parede. A morta atentou Margot até
conseguir que a encontrasse para assim a libertar! Depois disso o seu sossego é que acabou.
Descobriu que era médium e passou a ser, por assim dizer, assediada por todo
tipo de espírito em busca de ajuda, sempre após a meia noite. Alguns pedidos
eram totalmente sem noção, como: “Diga ao meu gatinho que a ração está na
prateleira de baixo no armário!” Ou então: “Estou preso aqui em baixo, me
ajude!” E este era o tipo que trazia mais frustração porque nem sempre ela
descobria á que se reportava. Até detetives passaram a procurá-la em auxilio á
investigações! Um belo dia ela disse “chega”, e como era funcionária do Estado,
não foi difícil conseguir transferência de Belo Horizonte para Juiz de Fora.
Por pouco não mudou de nome também!
Agora
vivia num apartamento quitinete no bairro São Mateus e fazia de tudo para ficar
longe de qualquer coisa minimante sobrenatural. O fone de ouvido era a maneira
encontrada para abafar o falatório dos espíritos.
Era
inicio de madrugada e ela estava quase adormecendo ouvindo “Blue moon” na voz
de Ella Fitzgerald, quando pareceu ter escutado choro de criança. – Não é
possível! – irritou-se, mas prestou atenção, tirou o fone e não parecia nenhum
espírito e sim uma criança chorando de verdade, e vinha do corredor do prédio.
Ao espiar no olho mágico viu um menino agachado com sua cabeça baixa chorando e
encostado á porta do apartamento ao lado. Era o filho da vizinha.
Margot
abriu a porta: - Oi garoto!
Ele
a olhou e imediatamente pediu: - Me ajuda moça? – ela chegou perto e se
agachou: - Sim, o que aconteceu? – ele disse: - Minha mãe,... Eu preciso saber
a onde ela está!
- Como você se chama?
- Júnior!
- Eu sou Margot. Diga o que aconteceu Júnior?
-
A minha mãe arranjou um namorado que bate nela! Um homem mau que ela conheceu
numa festa e gostou dele; eu não gostei! No começo ele tratava ela bem, mas
depois começou a maltratar e ela quis acabar o namoro. Ele não aceitou e
começou a bater nela! – Margot ouvia-o consternada. – Mamãe pediu ajuda na
polícia e um moço de lá mandou ele ficar longe! Hoje quando eu voltei do
colégio, não tinha ninguém em casa, e o homem telefonou pra ela dizendo que
queria pedir perdão e conversar. Mamãe saiu com ele e eu não queria que ela
fosse! Agora ela sumiu.
-
Como se chama sua mãe?
-
Danielle Arruda Santos! Quando eu voltei do colégio, não tinha ninguém em casa.
-
Você não pode entrar na sua casa? – ele respondeu: - Não tenho a chave! Por
favor, me ajuda! – começou a chorar: - Ele chama Wesley e vai matar a mamãe!
Margot
o confortou: - Eu vou te ajudar!... – e lhe estendeu a mão. – Venha para minha
casa! – Júnior a seguiu ao seu minúsculo apartamento entrou e ela ficou uns
segundos sem saber o que fazer até o menino falar: - Liga pro policial que
ajudou a gente!
Ela
pensou: - Aposto que foi na Delegacia da Mulher. E perguntou: - Você sabe o
nome do policial que a ajudou?
-
É Arquimedes! Liga pra ele moça! – Margot apanhou seu notebook, e logo estava conversando com uma atendente
explicando a situação, mas ela disse que não podia fazer nada á àquela hora.
Então Margot perguntou: - Aí tem um policial chamado Arquimedes? – a atendente respondeu
afirmativa e passou a ligação. – Boa noite; detetive Arquimedes na linha. Estou
falando com quem, por favor? – Margot explicou o que estava acontecendo e o
policial lhe disse que Wesley era um sujeito violento com denúncias de agressão
á mulheres, e completou: - Ocorre que a senhora Danielle fez a queixa num dia e
voltou no outro para retirá-la. Nós não poderemos fazer nada até pelo menos
vinte quatro horas do seu desaparecimento. – Margot olhava o garoto e respondeu
quase sussurrando: – Mas senhor Arquimedes, vinte quatro horas é tempo
demais!... A mãe dele pode ser abusada e até,... – não quis falar a palavra. O
policial então respondeu: - Olhe senhora Margot: o que posso fazer é verificar
se ela deu entrada em algum hospital ou no IML. Infelizmente, se ela
desapareceu por volta de uma da tarde, e agora são quase uma e quarenta da
noite, é uma hipótese á ser considerada. – Margot se assustou, mas aceitou, e
como ele estava de plantão combinaram manter contato caso houvesse alguma
notícia e de manhã levariam o caso á delegada. Ela agradeceu e desligou.
Júnior
escutou-a: - A mamãe tá morta e não querem me falar!
Margot
o acudiu: - Não!... O detetive Arquimedes vai encontrá-la!
-
Não vai! Ele não sabe onde ela está. – soluçava ao dizer: - Precisa saber onde
ela está e levar a polícia lá!... – e se jogou no travesseiro chorando.
Ela
o confortou: - Daqui a pouco o detetive vai ligar. Você vai ver!... Não chore.
Eu vou ficar aqui com você! – ele se aninhou no seu colo.
Passava das duas horas da manhã quando o
telefone tocou: era Arquimedes falando que não havia registro da sua entrada em
nenhum hospital, mas haviam encontrado o corpo de uma mulher negra sem
documentos e abandonado ás margens do Rio Paraibuna, muito mutilado, que se
adequava ao biótipo de Danielle. Houve um silêncio ensurdecedor até Arquimedes
falar. – Estou esperando alguém me render aqui para seguir até ao IML e tentar
identificá-la. É o que posso fazer. – Margot agradeceu, desligou e ficou
extremamente angustiada ao olhar o rostinho de Júnior, adormecido, mas ainda
com marcas das lágrimas á face. – Meu deus,... Não posso ficar aqui sem fazer
nada!
Ela
relutou por alguns minutos até falar para si: - Ah, mas que droga!... Não tem
outro jeito! – com cuidado para não acordá-lo, Margot seguiu ao banheiro e
fechou porta. Sentou-se numa banqueta, cerrou seus olhos, se concentrou e
falou: - Vocês é que sempre me procuram com pedidos, que eu atendi na medida do
possível!... Agora sou eu que peço socorro, não para mim, mas para esse
garotinho ao qual posso sentir todo o medo que emana do seu espírito!...
Portanto eu imploro: alguém aí do plano espiritual, me ajude! – passaram-se
longos quinze minutos e nada. Ela olhava para os lados sem resposta alguma. –
Meu deus,... Será que, como disse um psiquiatra, é tudo loucura da minha
cabeça?
Mais
dez minutos, e vencida pela frustração ela lamentou: - Como eu imaginei,...
Nunca houve nada e o medico tem razão: sou esquizofrênica. – então saiu do
banheiro com o coração apertado e foi á cozinha beber água. Quando enchia o
copo, escutou uma voz. – Olá? – ela quase deixou o copo cair e olhou para os
lados na busca da certeza: - Quem é?... Quem é? – escutou uma risada: - Não
reconhece mais a voz de uma amiga? – Margot recordou da noite que encontrou o
corpo de Silvia emparedado. Ela colocou uma bolinha de gude no meio da copa e
ela rolou na direção da parede falsa onde seu cadáver estava escondido. –
Silvia é você? – ela respondeu: - Sim. Sou muito grata por ter me libertado,
mas não iria me apresentar num banheiro!... Eu era uma mulher muito fresca em
vida, e acho que aqui, no outro lado, não tomei jeito! – Margot sorriu: -
Graças á deus! Eu preciso de ajuda. Quero saber onde está uma pessoa,... Se ela
está viva. É possível? – Silvia respondeu: - Querida; aqui nós não somos
interligados como numa rede social, não é assim! – decepcionada: - Então, não
dá? – a resposta: - Desta maneira infelizmente não. Mas,... Podemos tentar
algo: você conhece bem a pessoa que quer saber onde está? – Margot: - Sim, é
minha vizinha de porta! – Silvia: - Então, imagine a figura dela o máximo que
poder, com todas as forças da sua mente! – Margot fechou os olhos e lembrou-se
das vezes que viu Danielle: uma negra alta com cabelo afro, muito sorridente.
Depois de vários minutos sem resposta, Silvia falou: - É pouco!... Precisa que
você toque em algo que ela tenha tocado muito! – abanando a cabeça Margot
respondeu: - Eu teria que entrar na casa dela, e está trancado! – a resposta: -
A maçaneta da porta; ela deve tê-la tocado dezenas de vezes. Lembre-se que você
é a peça chave para isto dar certo! – rapidamente ela saiu ao corredor do prédio
e segurou firme a maçaneta, e logo sentia arrepios pelo corpo e um tremor.
Então começou a formar uma imagem na sua mente: uma sala; um sofá; a silhueta
de um homem corpulento segurando uma mulher pelo braço, sacudindo-a enquanto
ela rogava: “me deixe ir embora... Acabou, vê se entende”. O homem a esbofeteou
e gritou: “ainda não entendeu que nada acabou e você é minha?” empurrou-a na
cama e tentou fazer sexo á força. – Margot ficou horrorizada e falou voltando
do transe: - Que nojo esse,... Animal! – já ia soltando a maçaneta quando
Silvia falou: - Não a solte ainda, agora tente ver á onde eles estão! – com
toda a força da sua mente, Margot se concentrou e se viu caminhando num lugar
estranho, com carros desmontados; era um ferro velho. Ela andou mais um pouco e
viu uma piscina cheia até o meio com água suja tendo varias carcaças de carros
em volta, e mais nada. Então, exausta ela voltou do transe e se sentou no chão.
– Que lugar é aquele?... Um cemitério de automóveis com uma piscina no meio?
Isto não existe. - Silvia falou: - Não é porque você nunca o viu que o lugar
não existe. E a moça está lá! – ela respondeu: - Tem razão,... E sei quem pode
me dizer á onde é!
Arquimedes
acabava de escutar a explicação de Margot pelo telefone e falou: - Deixe ver se
eu entendi direito. A senhora entrou num transe mediúnico e conseguiu ver o
lugar á onde a senhora Danielle está!... É isto?
-
Exatamente!... O Wesley a sequestrou e a mantém em cárcere! É um sujeito
repulsivo e violento,... Vai matá-la! O senhor precisa ir lá junto com um
pelotão de policiais!
-
Um momento,... Lá aonde?
-
Nesse lugar que eu falei; que tem carros abandonados em volta de uma piscina!
-
Mas a senhora sabe onde é?
-
Eu já não disse que não sei?... As mensagens dos espíritos não vêm com
endereço!... Estamos perdendo tempo, ela corre perigo!...
-
Espere, espere senhora Margot: precisaria ter uma denúncia para podermos agir!
-
Então eu estou fazendo a denúncia!
-
Não é assim,... Uma denúncia sem descrição do lugar onde estaria ocorrendo o
delito, nós não teríamos como averiguar. Posso registrar um boletim de
ocorrência do desaparecimento da senhora Danielle,...
Margot
interrompeu: - Eu não sou uma doida que tem delírios!... Estou falando sério;
ela está correndo perigo eminente de vida e eu sei á onde ela está. Daqui a
pouco será tarde demais!... Alô, senhor Arquimedes?
Ele
retornou: - Desculpe, é que eu encontrei o boletim lavrado às seis da tarde
notificando desaparecimento da senhora Danielle. Foram seus colegas do trabalho
que alertaram.
-
Está vendo senhor Arquimedes, eu estou falando a verdade!... O senhor sabe a
onde é este lugar que eu descrevi! – blefou: - Sou médium, e estou vendo que o
senhor sabe!
-
Está bem, eu sei! Há um desmanche de carros abandonado situado na BR-040 que
tem uma piscina em ruínas, perto do Mirante!... Mas mesmo assim, não posso
designar uma patrulha baseado numa premonição...
-
Bem, estou vendo que não dá para contar com a polícia sem ter a informação
exata! Eu vou lá conferir e então faço a denuncia!...
-
Não faça isto senhora!... É perigoso, pode ter viciados e ladrões por lá!...
Ah, está bem, me dê seu endereço e espere na porta que passo aí. Vamos os dois!
- ela deu o endereço e se preparou para sair. Antes chegou perto de Júnior que
estava acordado e disse: - Vai salvar minha mãe! Eu fico quietinho aqui
esperando. – Margot se surpreendeu com a atitude do garoto e antes de sair lhe
deixou um telefone recomendando que ligasse á qualquer problema ou notícia de
sua mãe. Ele concordou e se aninhou mais ainda no cobertor.
Chegaram
rápido ao local na beira da rodovia. Havia um portão quebrado e por trás um
terreno repleto de carros acidentados muito destruídos já tomados pelo mato.
Arquimedes certificou-se de estar vazio e seguiram a diante. Era um cenário
assustador á luz da lanterna do policial e Margot caminhava olhando em torno;
estava confusa. Em instantes se aproximaram de um buraco quadrado no chão com
bordas azulejadas em ruínas e cercado de carcaças de todo tipo de veículo,
inclusive dentro da piscina.
-
E então senhora Margot: onde é?
Ela
olhou em volta, pôs as mãos na cabeça e disse. – Não sei!... O lugar que eu vi
não era assim! A piscina não estava tão arruinada e tinha água dentro!... Não é
aqui, não é aqui!
Arquimedes
passou as mãos nos cabelos curtos e falou: - Tudo bem! Realmente não há nenhuma
construção em volta: só esse monte de sucata!... Vamos embora!
De
volta no carro ela não se conformava: - Eu vi!... Não é loucura, eu vi! - Arquimedes
tentava acalmá-la: - Tudo bem. Nós tentamos né? - Ela prosseguia: - Eu vi!...
Era uma piscina grande com água suja até o meio. Parecia que tinha umas casas
atrás!... Meu deus do céu, eu não sou louca! – Margot disse isto no momento que
passavam diante do Mirante da BR-040. Então Arquimedes parou. – Será que?... –
e deu ré para entrar numa estradinha que saia por trás de um bar e seguia num
declive: - Aqui na frente tem um condomínio fechado que está vazio e tem uma
piscina! - em minutos começaram a aparecer carcaças de carros abandonadas dos
lados da estradinha. – Olhe só: um desmanche de carros roubados! – explicou, e
Margot falou. – Foi isto que eu vi! – olhou adiante e apontou. – Pare aqui,
pare aqui! – mal o carro parou para ela saltar e correr a diante. Arquimedes
até se assustou: - Espere aí,... Sua maluca! – e saiu correndo atrás.
-
É aqui! – ela parou diante de uma grande piscina que ainda continha uma lâmina
de água suja no fundo. Em torno havia mais carcaças de carros. – É aqui, ela
está aqui!
Arquimedes
tapou sua boca e pediu silêncio apontando á uma casa mais longe que estava com
luz acesa. Tinha uma camionete nova parada na entrada. Ele recomendou á Margot,
sussurrando: – Eu vou até lá. Vá para o carro e espere. Se acontecer alguma
coisa, toque a buzina, está bem? – ela concordou e ele seguiu até a casa, mas
antes pediu que enviassem uma patrulha á aquele local, com urgência.
Devagar,
Arquimedes se aproximava da casa tomando cuidado para não fazer barulho, pois
havia entulho e cacos de vidro na calçada, e ouviu uma voz: era Wesley que
gritava. – Você acha que é boa demais para mim, é isso? – ele olhou pela janela
e o homem segurava Danielle pelo braço. – Acabo com você e o catarrento do seu
filho! – e tentou esganá-la, e esta foi á deixa para Arquimedes chutar a porta
e entrar com sua arma em punho: – Afaste-se dela! É a polícia! - ele respondeu,
largando-a no sofá: - O que é isso? Estamos só conversando! – ainda apontando a
arma ele ordenou: - Coloque as mãos para o alto e se deite no chão, agora! –
cínico Wesley falava: - Qual é doutor. É só uma conversinha com a minha noiva.
– riso. – Sabe como é? Tem hora que a gente precisa mostrar quem manda! –
Arquimedes ordenou novamente: - No chão, e coloque as mãos para trás! – ele
obedeceu e se deitou. O policial se aproximou apanhando as algemas que trazia
no bolso do casaco e pôs o joelho nas costas de Wesley preparando-se para
algemá-lo. Porém, ele era um homem grande e forte que se levantou num arranco,
se virou e segurou a mão armada de Arquimedes enquanto lhe aplicava um soco na
barriga. Lutaram, e ele conseguiu lhe desferir um golpe no rosto com um “soco
inglês”, fazendo-o perder a arma. Atordoado o policial caiu no chão enquanto
Wesley se abaixou para pegá-la: - Perdeu play boy, perdeu! – riu enquanto lhe
apontou a arma: - Tu não sabe que briga de casal ninguém se mete? Pera aí: é o
policialzinho da delegacia das Mulher! – Arquimedes o olhou ainda zonzo com
sangue escorrendo do nariz enquanto Wesley se preparou para atirar: - Vai ser menos
um filho da puta no mundo! – então se ouviu uma voz: - Ei gostosão. Olha pra
cá! – Wesley se virou e deparou com uma figura estranha se aproximando: - Que
porra é essa? – a figura respondeu: - Meu nome é Ângela e sou a realização dos
seus sonhos! – e apontou Danielle desacordada num sofá velho: – Você nem gosta
de mulher, baby, e é por isso eu vim aqui só pra você! – era um travesti que
foi chegando perto. Wesley o ameaçou: - Sai fora, seu viado!... Eu atiro! – a
figura respondeu: - O que é isso, fofo, nós dois sabemos do que você gosta. Se
achegue comigo! – assustado e confuso Wesley atirou contra a figura e nada
aconteceu: - Assim eu fico magoado, sabia? – chegou mais perto. – Já vi tudo: é
mais um enrustido covarde igual ao que me largou aqui! – o homem deu vários
passos para trás depois de atirar mais vezes.
Então,
já refeito, Arquimedes aproveitou para atacá-lo agarrando-o pelo pescoço e
derrubando-o. Wesley perdeu a arma e o policial lhe deu socos na cabeça,
atordoando-o e algemando-o á uma grade. – Obrigado amigo. – falou olhando a
figura, que parecia estranha e flácida enquanto Margot estava parada á porta
com sua boca aberta de onde saía uma espécie de cordão branco ligando-a á
figura, que colocou as mãos nos quadris e disse: - De nada querido! Acho que
agora está tudo resolvido por aqui. – e se desintegrou como que se derretesse.
Wesley começou a voltar a si e Arquimedes apanhou sua arma e apontou para ele.
– Quieto aí. Acabou! – estranhamente o homem abaixou a cabeça no chão e começou
a chorar. O policial correu até Margot que estava estática com os olhos virados
para trás. – Senhora?... Margot? – ela pareceu voltar a si, e disse. – Héim?...
O quê? – olhou em volta. – Como vim parar aqui?
-
Eu é que pergunto... Não mandei ficar no carro?
-
Eu não sei o que aconteceu,... – olhou-o: - Você está sangrando! – ela viu
Danielle gemer ferida no sofá e correu para acudi-la: - Sou sua vizinha,
Margot; como você está? – com dificuldade, perguntou: -... Cadê meu filho? –
ela respondeu: - Ele está na minha casa,... Não fale,... Agora está tudo bem! –
Arquimedes a olhava totalmente perplexo. - Não fique aí parado, chame a
ambulância para socorrer Danielle!
-
Ah, sim,... Claro! – Arquimedes apanhou o telefone para chamar o socorro.
Margot confortava Danielle quando ouviu a voz
de Silvia: - Garota, você é boa!
-
Do que você está falando, boa no quê? – sussurrou.
-
Não seja modesta, você é uma maga! Conseguiu materializar o espírito com
ectoplasma para enganar esse brutamonte! Se eu tivesse matéria, ficaria
absolutamente arrepiada. – riso.
-
Ainda não entendo do quê está falando,... Ectoplasma?
-
É a substância que os médiuns produzem com o próprio corpo para materializar os
espíritos!... Depois explico. E diga ao seu amigo policial para fazerem uma
busca por aqui. Tem um cadáver enterrado em algum lugar. – suspiro: -
assassinado e escondido, como aconteceu comigo.
O socorro veio e levaram Danielle ao hospital.
Wesley foi levado preso; suspeitava-se que era também um ladrão de carros que
usava aquele local para desmanche.
Arquimedes
ficou impressionado com o que viu, e disse que se empenharia em vasculhar
aquela área em busca de algum cadáver escondido.
Amanhecia
quando Margot entrou na sua quitinete: - Júnior!
O garoto se levantou rápido já perguntando: -
Cadê minha mãe?
-
Ela está bem! Teve que ir para o hospital, mas já está medicada e bem!
-
Eu quero ver ela!
-
Sim, vai ver! Mas antes eu vou levá-lo á casa de uma amiga da sua mãe chamada
Maria, que vai ficar com você até ela poder voltar pra casa!
-
E o homem mau?
-
Está preso na cadeia, não precisa mais ter medo dele! Sua mãe disse para você
pegar roupas, escova de dente e seu material escolar, a chave da sua casa está
aqui.
Ele a abraçou. – Obrigado, á você sua amiga!
-
Amiga?...
-
Essa dona que está aí do lado! Vocês é um casal que moram juntas aqui?
Margot
ouviu a gargalhada de Silvia e respondeu: - Somos só amigas! Agora se apresse
porque Maria está esperando. – Júnior saiu correndo e Silvia falou: - Essas
crianças de hoje! Ele pensou que somos um casal homoafetivo, hilário!
-
Espere um pouco: como ele pode te ver e eu não?
-
Não sei, crianças enxergam coisas que adultos não conseguem. Vai ver que você é
desses médiuns que só ouvem,... E também produz ectoplasma!
-
Mas, se eu a libertei, por que ainda está aqui no plano físico?
-
Ahn,... Disseram que sou um espírito de luz, mas preciso ficar ainda um tempo
na terra fazendo o bem para purificar meu carma. – riso. - Está certo. Fui uma
menina muito má quando viva! Hei Margot: fazemos uma boa dupla, e quem sabe se
chamarmos aquele policial para fazermos um trio, ninguém ia poder com a gente!
O que me diz?
Margot
só olhou para cima e disse:
-
Oh deus!...
Fim
domingo, 1 de dezembro de 2019
"era a casa mais antiga da rua; via-se no frontispício o ano de 1934 como marco da construção."
Depois de muitos anos com placas de
“vende-se” caindo ressecadas de tanta exposição, a casa de número 99 da Rua
Verdi finalmente entrava em reforma, indicando que teria novo proprietário.
Era um belo exemplar em estilo Art Decó,
com ornamentação em formato de escadas e círculos concêntricos na fachada
cinzenta, que apesar dos anos de abandono, estava íntegra, e o novo dono pretendia
mantê-la o mais original possível, pois era a casa mais antiga da rua; via-se no frontispício ano 1934 como marco da construção. A vizinhança era composta
por novos moradores em prédios de apartamentos modernos que não conheceram seus
antigos donos e nem sua história, apenas na escritura constava o nome do
espólio de Moema Ebenézer Aborgast, mas foi negociado por um advogado,
herdeiro, que não se interessou em ficar com o imóvel. Melhor para Alexandre, o
novo dono que pretendia viver na casa com a esposa, Amarílis, e o filho
Guilherme.
A reforma foi relativamente simples
porque estava em bom estado de conservação, e como pretendiam preservá-la, as
obras mais complexas e adaptações restringiam-se á parte elétrica e hidráulica.
Amarílis era arquiteta, e estava deslumbrada por detalhes, como os lustres e
arandelas de opaline com pingentes de cristal e os vitrais coloridos com motivos
geométricos na escadaria. Alexandre era advogado, e se sentia bem na amplitude
do pé direito de quase cinco metros do primeiro andar e no magnífico piso em
tacos de peroba rosa; já Guilherme, fã do Batman achava o máximo viver numa
casa cuja arquitetura parecia saída direto de Gothan City!
Mudaram-se ao final de outubro e fizeram
uma festa de inauguração que ganhou as colunas sociais. Todos se encantaram
pela beleza da vivenda e no aprumo da reforma que a manteve original sem abrir
mão dos confortos contemporâneos. No jantar, Alexandre prometeu uma festa de
Natal memorável para aquele fim de ano.
A primeira noite na casa foi de amor
para o casal, enquanto Guilherme assistia á seus filmes de Batman, reconhecendo
semelhanças da sua casa com as dos cenários fabulosos das histórias.
No início de novembro, o garoto
estudioso já havia passado de ano para orgulho dos pais, e assim podia
eventualmente matar uma ou outra aula, quando ficava andando em busca dos
detalhes arquitetônicos da casa: - Pai! – chamou-o. – Sim, filho! – ele apontou
á uma espécie de degrau que separava a imensa sala de estar em dois ambientes.
– Tem um quebrado aqui, o senhor viu? – Alexandre se aproximou, e viu um
pequenino talhe na quina do mármore vermelho do degrau, algo que não tinha
notado. Imaginou descuido de algum operário na reforma, mas ao passar os dedos
no quebrado, sentiu suas pontas gastas pelo tempo; isto o aliviou, pois
significava um dano antigo do tempo dos primeiros moradores. Ele sorriu e disse:
- Isto faz parte da história da casa, filho! - o garoto assentiu e perguntou sobre outro
detalhe: - E aquela parte da parede que é diferente? – apontou a um lugar entre
duas pequenas janelas compridas onde havia uma discreta marca em formato de
meio círculo. – Ah! – abanou a cabeça: - Ali já teve uma lareira que foi tapada;
mas ficaram os antigos dutos da chaminé até ao terraço.
- Por que tiravam a lareira, pai?
- Deve ter sido porque não era usada. –
riso. – Nesse calor tropical, realmente não faz sentido.
- O senhor vai mandar fazer do novo?
- Não temos fotografia e nem projeto
original da casa para sabermos como era; assim não é possível reconstruir! –
respondeu dando de ombros.
Enquanto isto Amarílis entrava numa
mercearia no bairro para compras e foi recebida por uma senhora chamada Dirce
que, sorridente, elogiou: - Ah, nós ficamos muito felizes ao vermos que a casa
não ia ser demolida para construção de mais um caixote de cimento! É última
casa antiga do bairro. – e apontou fotos com ruas na década de 1930 em
quadrinhos ás paredes. – Olha ela aqui! – Amarílis aproximou e viu a foto da
casa, nova em folha, com decoração natalina no jardim e a data: 23 de dezembro de 1934. A foto era muito
boa, podendo ver-se a silhueta de uma árvore de natal imensa á janela da sala
de estar. – Que linda! – exultou. –
Parece que as pessoas que viveram na casa eram festeiras, héim? – Dirce
respondeu: - Nem tanto. Cheguei a conhecer a senhora Moema, dona da casa. Muito
idosa, ela viveu sozinha na casa até 1989, quando faleceu, e minha irmã mais
velha foi sua acompanhante nos últimos anos de vida. Era viúva e sempre andava
de preto dos pés a cabeça e depois, como não tinha ninguém, a casa foi fechada.
- Oh,... Que interessante. – falou
Amarílis, um pouco decepcionada com a banalidade da história. Conversaram mais
um pouco, e ela agradeceu entes de voltar para casa.
Quando entrou, viu Alexandre retirando
algo muito pesado de um canteiro no jardim adiante da casa, pareciam pedras. –
O que está acontecendo aqui?
- Amor!... Descobrimos que esta casa já
teve uma lareira na sala de estar!
- Ah, sim. – interrompeu Amarílis: -
Aquela marca em arco na parede, mas o tem a ver com estes pedaços de pedra?
- É porque eles são exatamente os
umbrais da boca da lareira que foram enterrados aqui! Não é fantástico? – falou
enquanto os arrumava no chão, formando uma espécie de boca de túnel em arco de
mármore vermelho. – Talvez sem ter o que fazer com os entulhos, acabaram jogados
aqui. Sabe quem os encontrou? – apontou ao filho Guilherme, que sorriu com suas
mãos sujas de terra, e disse: - Vim brincar aqui no jardim com o Batman. –
trazia o boneco na mão. – E eu achei! Agora papai falou que vamos fazer a
lareira de novo!
Alexandre aproximou de Amarílis dizendo:
- Mas só se você tiver paciência para tolerar mais obras em casa!
- Se é para fazer, que seja direito; né
amor? – respondeu Amarílis, e se beijaram. Guilherme exultou feliz. – Oba! A
minha casa vai ter lareira que nem nos filmes!
Naquela tarde o empreiteiro Alcino
acompanhado de um ajudante quebraram a parede revelando a lareira escondida.
Ele enfiou o pescoço pelo duto, dizendo: - Parece que está inteiro doutor
Alexandre,... – pisou em pedaços de carvão: - Esta lareira foi usada, olhe os
restos de lenha! – e ordenou a ao ajudante que os recolhesse numa pá. – Taparam
a boca da lareira sem limpá-la. – observou.
- Conseguem terminar até o final de
dezembro? – perguntou Amarílis.
- Sim senhora! A lareira era embutida e
está tudo ainda aqui, até a chaminé.
Amarílis sorriu e Alexandre perguntou: -
Você ama esta casa, não é?
- E qual arquiteta não adoraria viver
nesta obra de arte cheia de história? A
irmã da dona da mercearia conheceu a dona Moema, e estou com vontade de
perguntar como era a família que viveu aqui!
- Esquece isto, querida; a família que
viverá aqui agora é a nossa e seremos muito felizes! – e se beijaram.
Mais tarde Amarílis retornava do
trabalho e viu os entulhos retirados da lareira arrumados em sacos para serem
descartados. Ela ia passando direto quando algo lhe chamou atenção: eram cacos
de vidro vermelho misturados às cinzas e restos de carvão. Ou melhor: eram
cacos de cristal! Ela riu e abanou a cabeça ao lembrar-se que, quando criança,
quebrou uma xícara de porcelana e escondeu os cacos num vaso de antúrios para
não levar bronca; e certamente alguém teria feito o mesmo com um copo ou cálice
partido.
Em quinze dias a lareira estava
reconstituída, imponente como um túnel ferroviário em miniatura de mármore
vermelho trazendo um medalhão ao centro com as letras “J, E, A”. – Eu descobri
que são as iniciais do nome do marido da dona Moema: Joaquim Ebenézer Aborgast!
– falou Alexandre. – Era fazendeiro, empresário, e morreu em 1942. O que achou
amor? – ela olhou a lareira, e o que a princípio pareceu boa ideia, tornou-se
estranho. Mas, não entendendo o porquê do súbito estranhamento, elogiou para
não desagradar. – É maravilhosa, querido!
- Tem outra novidade: Guilherme quer uma
árvore de natal, mas não como as compradas em lojas. – tirou um papel com
imagens da internet. – Mas igual a estas: - eram fotos de árvores de natal
norte americanas enormes, feitas com pinheiros naturais e salpicadas de
enfeites. – Eu procurei saber onde comprar isto no Brasil, e encontrei. Estou
pensando em encomendar uma para marcarmos bem o nosso primeiro Natal aqui, e
fazer um agrado ao nosso filho. O que você acha amor?
Amarílis respondeu: - Prefeito! Como eu
disse: se é para fazer, que seja direito! – e se abraçaram. Mas o estranhamento persistia, e ela debitava
isto ao stress da obra.
A ideia era fazer uma grande festa
natalina, convidando amigos, sócios e clientes da arquiteta e do advogado, além
de vizinhos. Dirce ficou contente pelo convite, só lamentou a irmã não poder
vir de Manaus para a festa. Naquela tarde conversavam na mercearia, e ela
revelou: - Dione, minha irmã que acompanhou a dona Moema, tinha muita pena
porque seu marido, que chamava Joaquim, batia muito nela e no filho.
- O casal então tinha filhos?
- Até onde eu sei, apenas um! –
respondeu Dirce ao que Amarílis divagou: “se tinha um filho como herdeiro,
porque o advogado se apresentou como tal?”. A mulher completou: - Que horror
era aquele tempo que as mulheres tinham que apanhar caladas! – Amarílis concordou.
Agradeceu e retornou á casa; mas antes ligou á Alexandre falando deste filho da
dona Moema, que em tese seria o herdeiro. O marido disse que não mencionaram
isto no negócio, mas era bom investigar para não haver problemas.
De volta, Amarílis foi conferir uns
projetos no AutoCAD, quando viu o boneco do Batman, jogado no corredor, á porta
do quarto de Guilherme. – Uai, ele nunca larga esse boneco! – e seguiu ao
quarto do filho, encontrando-o agachado perto da cama, brincando com cacarecos
de brinquedos imundos que sujavam suas mãos e a colcha. Ela se aproximou e viu
que ele usava uma jaqueta de brim encardida e rasgada. – Guilherme, o que é
isto?... Esses brinquedos velhos e essa roupa suja; tire isto já! – obrigou-o a
se despir da jaqueta e perguntou: - Onde você arranjou este lixo?
- No porão mãe!... Tem uma mala debaixo
da escada cheia de coisas!
Ela encarou-o: - Me mostre, agora!
Bem mais tarde e mais calma ela falava
ao marido: - Estava tudo num vão escondido em baixo da escada e tapado com uma
parede de tijolos que Guilherme conseguiu quebrar: malas com roupas e
brinquedos, tudo mofado, sujo e cheio de bichos!
Alexandre completou. – São brinquedos
muito antigos que se estivessem perfeitos seriam antiguidades valiosas. Carrinhos,
trenzinhos, mas enferrujados e podres! Puxa vida amor, você é arquiteta,
inspecionou a casa e não viu isto?
- Eu olhei cada centímetro daquele porão
e não vi! – suspiro. – E quanto aos restos da lareira enterrados no canteiro;
eu mesma arrumei a terra e plantei as mudas, e não vi nenhum sinal daquilo lá!
Eu cavei fundo e repito: não havia nada daquilo enterrado naquele canteiro!
- Acalme-se amor!... Estava enterrado
fundo, e às vezes você não percebeu, não por desatenção, mas, porque realmente
era algo inusitado! – ele segurou as mãos da mulher: - desculpe. Acho que essa
reconstrução da lareira foi demais para nós. – abanou a cabeça: - Coisa inútil
uma lareira nos trópicos; por isto a taparam!
- Não diga isto; ficou tão lindo! Talvez
eu tenha ficado tão encantada pela arquitetura desta casa, que realmente não
prestei atenção! Mas agora que está pronto, vamos curtir e fazer uma festa de
Natal para ficar na história! – falou Amarílis beijando o marido, e seguiu ao
quarto do filho. Alexandre ficou a sós,
pensando: “se há brinquedos e roupas de criança na casa, é porque a história do
filho da dona Moema procede.”.
Ela entrou com cuidado e Guilherme
dormia. Aproximou e deu-lhe um beijinho de boa noite; depois pegou seu boneco
do Batman e o colocou ao seu lado, no travesseiro, como o filho gostava, e
saiu.
Minutos depois, Guilherme o apanhou e atitou-o
ao chão.
Dias depois, a árvore seria entregue.
Combinaram que Amarílis sairia com o filho para um passeio no shopping enquanto
Alexandre arrumaria a arvore para surpreender o filho.
Durante o trajeto de carro, Guilherme
falou: - A cidade está diferente.
- Está chegando o Natal, e há mais
movimento e carros nas ruas. – respondeu a mãe, sem deixar de notar o olhar
perdido do filho. Então perguntou: - Você está gostando da nossa casa,... –
riso: -... Nossa antiga casa nova?
- Sim. Está igual antes! – respondeu o
garoto. Amarílis achou a resposta um pouco estranha, mas não perguntou mais
nada.
Quando retornaram á casa, ela abriu a
porta e a árvore estava montada e enfeitada com bolas coloridas, cordões
dourados, guirlandas, bengalinhas listradas, laços e luzes coloridas que
piscavam. Era enorme e quase tocava o teto. Alexandre estava exausto, mas
contente ao perguntar. – E então, filho: é assim que você queria?
O garoto caminhou até a árvore, e falou.
– Tá igualzinha; supimpa!
O pai riu: - Nossa filho, de onde você
tirou esta gíria antiga? – o menino não o ouviu e perguntou: - Cadê a estrela
que fica no topo?
Alexandre olhou e coçou a cabeça ao
responder: - Puxa vida, que mancada!... Eu esqueci de colocar!
- Coloque agora, pai!
- Não pode ser mais tarde, Guilherme? O
pai está meio cansado de subir e descer a escada, que até já guardei!
- Não!... Tem que ser agora!
Amarílis interveio: - O que é isso,
filho? Seu pai disse que está cansado; vamos deixar para logo, ou amanhã!
- Não, não!... Eu quero agora!
A mãe ia repreendê-lo, mas Alexandre a
cortou: - Tudo bem amor; ele está certo, é melhor fazer isto logo,... Como você
diz sempre: se é para fazer, que seja direito! Vou á garagem buscar a escada.
O garoto sorriu, mas Amarílis não achou
aquilo certo, e decidiu que ela colocaria a estrela no topo da árvore, á mais
de quatro metros de altura, no lugar do marido. Nisto a campainha tocou: era
Dirce. – Olá querida,... Desculpe incomodar; vim porque não tenho seu telefone!
- Algum problema, dona Dirce?
- Não exatamente,... Eu estava
conversando com Dione por telefone, e falei que a casa que ela trabalhou não ia
ser demolida e,... Vou ser sucinta: ela quer falar com você, Amarílis. Está
esperando ao telefone fixo lá na mercearia!
- Precisa ser agora? Passe-me o número
dela que eu telefono mais tarde!
Sem jeito Dirce insistiu: - Ela está um
pouco aflita, disse que é urgente!... Ela é idosa, eu gostaria que
compreendesse e viesse falar com ela. Por favor!
Amarílis assentiu e chamou o filho para
acompanhá-la: - Não! Eu fico esperando o pai!
- Está bem. Daqui a pouco eu volto! – e
saiu seguindo Dirce á mercearia, que se desdobrava em desculpas pelo
inconveniente. Viu Alexandre abrindo a porta da garagem e avisou: - Já volto!
Na mercearia, apanhou o fone e disse: -
Alô, aqui é Amarílis!...
Nem houve tempo para cumprimentos: -
Preciso falar com você sobre uma coisa que Dirce me contou: que vai fazer uma
festa de Natal na casa, e até iam fazer uma arvore bem grande!... É verdade?
- Sim, senhora Dione! Estávamos
montando-a neste instante!...
- Oh não!... Pelo amor de deus, não
deixe seu marido subir para colocar qualquer enfeite no alto da árvore!... –
Amarílis ia retrucar, mas ela prosseguiu: - Ouça-me, não sou uma velha gagá
como pode parecer; quando fui cuidadora da senhora Moema, ela confidenciou-me
que seu marido Joaquim era um homem autoritário, ciumento e violento, que a
agredia e também á Júnior, seu filho único que tentava defendê-la. Então,
sempre no Natal, Joaquim encomendava uma árvore cada vez maior, e fazia questão
de pôr uma estrela de cristal vermelho no topo, pessoalmente! – Amarílis
lembrou-se dos cacos vermelhos no lixo. Dione prosseguiu: - No Natal de 1942,
ele espancou a esposa por ciúmes, na frente de Júnior, e depois chamou os
empregados para o verem colocar a estrela no topo da árvore. Oh,... Então o
menino empurrou a escada, derrubando o pai que bateu a cabeça na quina de um
degrau e morreu na hora! O garoto ficou apavorado e saiu correndo para se
esconder no porão; mas não viu que o alçapão do poço estava aberto, e caiu,
morrendo também!... Isto não é delírio de uma velha maluca, não deixe seu
marido fazer isto!... Alô,... Alô?
Amarílis nem a esperou terminar e correu
de volta á sua casa o mais rápido que pôde.
Alexandre estava em pé no ultimo degrau
da escada de armar, se esticando para conseguir alcançar o alto da arvore para
colocar a estrela: - Segure a escada aí Guilherme; estou quase conseguindo!
O garoto segurava a escada com as duas
mãos, e tinha os olhos vidrados quando começou a balançá-la: - Ei,... Não
balance a escada,... Assim não consigo! – Sem apoio, teve que largar e estrela
que se espatifou no chão ao mesmo instante que Amarílis abria a porta.
Alexandre tentava apoiar as mãos na
própria árvore enquanto ordenava: - Pare com isto Guilherme!... Não tem graça!
Obedecendo á um impulso, Amarílis falou:
- Júnior; olhe para cá! – ele a olhou com olhos sem brilho: - É a mamãe!
Alexandre estranhou e perguntou: - O que
esta havendo,... – a esposa fez gesto para que se calasse, e prosseguiu. – Não
faça isto Júnior!... Está tudo bem; eu estou aqui!
O menino falou: - Ele vai bater na gente
de novo!... Isso tem que acabar... E aí a gente pode ir embora desse inferno,
mãe!
- Então venha comigo, agora!... Você
quer ir embora, não é Junior?
Ele chorou ao dizer: - Eu quero ir
embora daqui!... Eu quero a minha mãe!
- Então venha!... Ela vem te buscar!
O garoto largou a escada e seguiu na
direção de Amarílis, que o abraçou com força. Alexandre nem acreditou quando
viu dois vultos etéreos saindo ao lado de Amarílis e Guilherme, e depois
sumiram no ar.
- Mãe!... Tá me apertando! – reclamou o
filho. – ela o fitou, e seu olhar tinha voltado ao normal. – Que aconteceu? –
se virou para trás. – Que árvore grande!... E esquisita.
Alexandre desceu da escada e os abraçou.
– Pois é filho,... Grande demais, né? Eu vou devolver!
E continuaram abraçados.
Dias depois, a mudança saía da casa Art
Decó, de volta ao antigo apartamento. Alexandre e Guilherme aguardavam Amarílis
que se despedia de Dirce: - Muito obrigada a você e sua irmã Dione. Sem vocês minha
família seria destruída.
- Que pena. Uma casa tão linda! Você
acha que o espírito de Júnior encontrou a paz?
- Espero que sim!... Mas perdemos
completamente a vontade de viver na casa. Vamos colocá-la a venda novamente!...
Adeus Dirce, e mais uma vez, obrigada! – despediram-se com beijos, Amarílis
entrou no carro, e partiram.
No interior da casa, uma voz grave e sem
som clamava: - Moema,... Júnior!...Malditos, abandonaram-me,... Malditos!
Fim.
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